Coração e risco metabólico

Infarto, não balança: o que o ensaio SELECT mediu em 17.604 pessoas

O ensaio SELECT acompanhou 17.604 pessoas com doença cardiovascular já estabelecida durante 3,3 anos e mediu infarto, AVC e morte cardiovascular, não a balança. O evento caiu de 8,0% para 6,5%, e a maior contribuição isolada veio do infarto. Como 27,7% dos participantes eram mulheres, a proporção mais baixa dos doze ensaios da classe, este texto separa o que a evidência mostra sobre diferença entre os sexos daquilo que ela apenas não teve tamanho para medir.

O que o SELECT mediu

O ensaio SELECT sorteou 17.604 pessoas de 45 anos ou mais, todas com doença cardiovascular já estabelecida e IMC de 27 ou mais, e nenhuma com diabetes, para receber semaglutida 2,4 mg por semana (8.803 pessoas) ou placebo (8.801), e acompanhou todas por uma média de 39,8 meses, cerca de 3,3 anos. O desfecho principal não era o peso na balança. Era um evento cardiovascular grave: morte cardiovascular, infarto do miocárdio não fatal ou AVC não fatal.

Esse evento aconteceu em 569 das 8.803 pessoas que receberam semaglutida (6,5%) e em 701 das 8.801 que receberam placebo (8,0%). A razão de risco foi 0,80, com intervalo de confiança de 95% de 0,72 a 0,90 e P menor que 0,001 (Lincoff, 2023). Em números absolutos, é uma queda de 1,5 ponto percentual ao longo de 3,3 anos: seriam necessárias cerca de 67 pessoas tratadas por aproximadamente 3,3 anos para que um evento a menos acontecesse. Esse 67 é conta feita a partir das proporções brutas, não cifra publicada pelo ensaio.

Um qualificador precisa vir junto, sem o qual o resto não significa o que parece: isto é prevenção secundária. Todo participante do SELECT já tinha tido um infarto, um AVC ou doença arterial periférica sintomática. Ninguém entrou apenas por ter excesso de peso, e o resultado fala só sobre quem já tem doença cardiovascular estabelecida.

De onde vêm os dados importa para quem lê no Brasil. Os relatos do ensaio descrevem 804 centros em 41 países (Deanfield, 2025; tabela 1 de Zawadka, 2026), e o registro do estudo na ClinicalTrials.gov lista 833 endereços, 15 deles no Brasil, ou 1,8%. Quantos efetivamente sortearam pacientes os documentos públicos não dizem.

Infarto caiu, AVC quase não caiu

Um desfecho composto esconde quais eventos se moveram. As contagens por componente estão no registro do estudo.

Infarto do miocárdio não fatal: 234 eventos no grupo da semaglutida (2,66%) contra 322 no placebo (3,66%). São 88 eventos a menos, uma diferença relativa de 27,3% e um ponto percentual inteiro em termos absolutos. É a maior contribuição isolada para o resultado.

AVC não fatal: 154 (1,75%) contra 165 (1,87%). São 11 eventos a menos e 0,13 ponto percentual. Morte cardiovascular contribuiu, e não de forma desprezível: 223 (2,53%) contra 262 (2,98%), 39 mortes a menos. Morte por qualquer causa: 375 (4,26%) contra 458 (5,20%), 83 a menos.

Três cuidados acompanham esses números. São contagens descritivas do patrocinador, sem razão de risco nem teste de significância para infarto, AVC, morte cardiovascular ou morte por qualquer causa isoladamente. O ensaio foi dimensionado para o composto e não para cada parte dele, então "27,3% menos infartos" não é um resultado testado do SELECT. E cada componente é uma análise de tempo até o primeiro evento daquele tipo: eles não somam o composto, porque 88 mais 11 mais 39 dá 138 e a diferença no desfecho principal é de 132 primeiros eventos.

A pergunta do sexo começa em 27,7%

O SELECT matriculou 12.732 homens (72,3%) e 4.872 mulheres (27,7%), com idade média de 61,6 anos.

Na revisão sistemática de Zawadka, 2026, que reuniu doze ensaios de desfecho cardiovascular da classe GLP-1, a proporção de mulheres variou de 27,7% a 46,3%. O piso é o SELECT; o teto é o REWIND. O ensaio que mais define o que se acredita sobre essa classe e o coração é, entre os doze, o que menos matriculou mulheres.

Daí nasce a pergunta que essa proporção torna inevitável, que é se os resultados valem igualmente para mulheres e para homens. A resposta curta: a evidência agrupada, que vem sobretudo de populações com diabetes tipo 2, não mostra que o efeito seja menor nas mulheres, e em vários desfechos as estimativas pontuais são até ligeiramente melhores nelas. O que existe, dentro do SELECT, é uma diferença de precisão, não uma diferença de efeito demonstrada. As duas se parecem num gráfico sem serem a mesma coisa.

O que as meta-análises respondem

Duas revisões sistemáticas responderam por caminhos diferentes, e não chegam a resultados idênticos.

A primeira é Siddiqui, 2025: os onze ensaios randomizados com resultados separados por sexo localizados numa busca no Medline, na Scopus e na Cochrane Central encerrada em fevereiro de 2025. Dez foram feitos em pessoas com diabetes tipo 2; o décimo primeiro é o SELECT, que não. São 85.273 pacientes, 43.339 em uso de GLP-1 e 41.934 em placebo. Para eventos cardiovasculares graves, a razão de risco foi 0,86 nos homens (intervalo de 95% de 0,79 a 0,93) e 0,82 nas mulheres (de 0,75 a 0,90), sem interação estatisticamente significativa por sexo (P de interação 0,47). Para AVC, foi 0,79 nos homens (de 0,67 a 0,95) e 0,75 nas mulheres (de 0,61 a 0,93), com P de interação 0,62. Para o desfecho renal composto, foi 0,80 nos homens (de 0,69 a 0,92) e 0,69 nas mulheres (de 0,54 a 0,87), com P de interação 0,31.

A mesma revisão separa por sexo o desfecho que dá título a este artigo. Para o infarto isolado, a razão de risco foi 0,84 nos homens (de 0,68 a 1,05) e 0,81 nas mulheres (de 0,60 a 1,09), com P de interação 0,80. Para morte cardiovascular isolada, foi 0,86 nos homens (de 0,73 a 1,02) e 0,85 nas mulheres (de 0,65 a 1,10). Nenhuma dessas quatro estimativas é estatisticamente significativa, e o mesmo vale para internação por insuficiência cardíaca nos dois sexos. Os autores registram que isso pode refletir falta de poder estatístico, e não ausência real de efeito.

A segunda é Zawadka, 2026: 47 artigos de 25 ensaios de desfecho cardiovascular e mais de 185.000 participantes publicados entre 2015 e 2025, tanto da classe GLP-1 quanto dos inibidores de SGLT-2. Dentro dela, a comparação de GLP-1 em diabetes tipo 2 agrupa onze ensaios e 77.419 participantes: homens com razão de risco 0,89 (de 0,82 a 0,96) e mulheres 0,83 (de 0,77 a 0,91). Ela calculou ainda a razão entre as duas razões de risco, que favoreceu ligeiramente as mulheres para eventos cardiovasculares graves (1,09, de 1,03 a 1,15) e para o composto de morte cardiovascular ou internação por insuficiência cardíaca (1,07, de 1,05 a 1,09). Nenhum teste formal de interação foi significativo, e a conclusão dos autores é que esses medicamentos oferecem benefícios cardiorrenais amplamente comparáveis entre os sexos.

E há o resultado que puxa para o outro lado, o que descreve a população deste artigo. Na mesma revisão, no único ensaio feito em pessoas sem diabetes tipo 2, que é o SELECT, a redução de eventos cardiovasculares graves foi estatisticamente significativa nos homens e não nas mulheres, e a razão entre as razões de risco favoreceu os homens. Nos desfechos renais da classe GLP-1 a mesma revisão se divide: benefício numericamente maior nas mulheres no composto de eventos renais graves ou morte cardiovascular e renal, e numericamente maior nos homens no desfecho renal composto. Nenhuma dessas diferenças passou num teste formal de interação, em nenhuma direção.

Por que o intervalo das mulheres é mais largo

A frase "no SELECT deu significativo nos homens e não deu nas mulheres" é verdadeira e é a mais fácil de usar mal deste artigo. Nunca deveria viajar sem a aritmética que vem junto.

Eram 12.732 homens e 4.872 mulheres. O subgrupo feminino é pouco mais de um quarto do ensaio, cerca de 2,6 vezes menor que o masculino. Subgrupo menor produz intervalo de confiança mais largo, e um intervalo largo o bastante para cruzar o valor 1 aparece como "não significativo" mesmo quando a estimativa central aponta na mesma direção. Um intervalo largo é uma afirmação sobre quantas mulheres foram matriculadas, não sobre se o medicamento funciona nelas.

Nas populações com diabetes tipo 2 que as duas revisões agrupam, o efeito nas mulheres é pelo menos tão grande quanto nos homens. Na população sem diabetes, que é o próprio SELECT, o único resultado disponível aponta para o outro lado, e é o que está descrito acima. E a análise pré-especificada do próprio SELECT sobre insuficiência cardíaca, feita nas 17.604 pessoas do ensaio, registra que não houve diferença significativa de benefício por idade, sexo, IMC, classe funcional ou uso de diurético (Deanfield, 2024). Qualquer frase parecida com "funciona nos homens e não funciona nas mulheres" é uma invenção, e não é o que nenhuma dessas fontes diz.

Quem entra em qual ensaio

Há um padrão estrutural por trás do 27,7%: quanto mais exigente o critério de entrada em doença cardiovascular estabelecida, menor a proporção de mulheres. Os números abaixo vêm dos módulos de características basais de treze registros na ClinicalTrials.gov, com SELECT, SOUL e FLOW conferidos também na tabela 1 de Zawadka, 2026. São somas brutas de ensaios heterogêneos, não uma meta-análise.

Critério de entradaEnsaiosMulheres
Doença cardiovascular ou renal estabelecidaSELECT 27,7%, SOUL 28,9%, SURPASS-CVOT 28,9%, FLOW 30,3%12.580 de 44.086 (28,5%)
Obesidade com diabetes tipo 2STEP 2 50,9%, SURMOUNT-2 50,7%1.092 de 2.148 (50,8%)
Insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada, com obesidadeSTEP-HFpEF (NCT04788511, 529 pessoas) 56,1%, SUMMIT 53,8%690 de 1.260 (54,8%)
Limiar de IMC, com ou sem condição associada ao pesoSURMOUNT-1 67,5%, STEP 1 74,1%, STEP 8 78,4%, STEP 4 79,0%, STEP 3 81,0%4.561 de 6.252 (73,0%)

Os ensaios que mediram perda de peso foram majoritariamente femininos, e os que mediram infarto, majoritariamente masculinos. É a razão estrutural pela qual essa classe é discutida sobretudo pela balança.

A explicação tentadora é que isso apenas reflete quem tem a doença, e ela está só pela metade. Na revisão de Zawadka, 2026, nos doze ensaios de GLP-1 as mulheres foram 33,9% dos participantes (32.186 de 95.023); nos treze de SGLT-2, 35,7% (32.238 de 90.413), com faixas por ensaio de 27,7% a 46,3% e de 23,4% a 44,9%. Zawadka e colegas compararam essa representação com a distribuição por sexo esperada a partir da prevalência da doença em cada população e concluíram haver representação consistentemente menor de mulheres. As causas que apontam como possíveis incluem padrões de encaminhamento, critérios de elegibilidade, perfis de comorbidade, responsabilidades de cuidado com outras pessoas, barreiras financeiras, socioeconômicas e culturais e a percepção de que participar de um estudo clínico traz mais risco.

Onde as mulheres saem em desvantagem na cardiologia

A sub-representação nos ensaios é um capítulo de um problema maior. Há outros três.

O primeiro é como o infarto se apresenta. No registro nacional de infarto do miocárdio dos Estados Unidos, com 1.143.513 pessoas internadas por infarto entre 1994 e 2006 (481.581 mulheres e 661.932 homens), 42,0% das mulheres chegaram ao hospital sem dor ou desconforto no peito, contra 30,7% dos homens: 11,3 pontos percentuais de diferença, com P menor que 0,001 (Canto, 2012). A chance ajustada de se apresentar sem dor no peito, mulheres contra homens, foi 1,30 (de 1,23 a 1,36) abaixo dos 45 anos, 1,26 dos 45 aos 54, 1,24 dos 55 aos 64, 1,13 dos 65 aos 74 e 1,03 (de 1,02 a 1,04) aos 75 ou mais.

A mortalidade hospitalar foi de 14,6% nas mulheres e 10,3% nos homens, e o padrão por idade se repetiu. Entre quem chegou sem dor no peito, a chance ajustada de morrer, mulheres contra homens, foi 1,18 (de 1,00 a 1,39) abaixo dos 45 anos, 1,13 (de 1,02 a 1,26) dos 45 aos 54, 1,02 (de 0,96 a 1,09) dos 55 aos 64, 0,91 (de 0,88 a 0,95) dos 65 aos 74 e 0,81 (de 0,79 a 0,83) aos 75 ou mais. A desvantagem está nas mais jovens e se inverte a partir dos 65.

Vale fixar o número que costuma ser distorcido: 58% das mulheres desse registro tiveram dor no peito. "Mulher não sente dor no peito no infarto" é falso; "mulher chega sem dor no peito com mais frequência, sobretudo antes dos 55 anos" é verdadeiro. E os dados são de 1994 a 2006, período em que, como os autores registram, o diagnóstico e o tratamento do infarto mudaram substancialmente.

O segundo é o relógio. No registro cardíaco do estado de Victoria, na Austrália, 6.330 pessoas com infarto com supradesnivelamento do segmento ST foram levadas de ambulância a 30 hospitais entre 2013 e 2018, e 21% eram mulheres (Stehli, 2021). Depois de ajuste, elas esperaram mais em cada etapa com decisão humana: 47,0 contra 44,0 minutos do sintoma ao chamado da ambulância, 58,1 contra 55,7 do chamado à chegada ao hospital, 58,5 contra 54,9 da porta do hospital à abertura da artéria. A demora total do sistema, do chamado à artéria aberta, foi de 137,2 minutos para as mulheres e 127,2 para os homens, medida em 1.121 mulheres e 4.270 homens: exatamente dez minutos a mais. O tempo isquêmico total, do primeiro sintoma à reperfusão, foi de 207,0 contra 190,5 minutos, 16,5 a mais. Só 20,2% das mulheres alcançaram a meta de até 90 minutos entre o primeiro contato médico e o tratamento, que é a referência de diretriz que o estudo adota, contra 27,6% dos homens. A mortalidade em 30 dias foi maior nelas (chance de 1,38, de 1,06 a 1,79) e o sangramento também (1,54, de 1,08 a 2,20).

Os autores registram que dois terços da demora total da mulher vêm do sistema de saúde, não da demora dela em pedir ajuda: 137,2 dos 207,0 minutos, ou 66%. E a única etapa governada por protocolo fixo de paramédico não mostrou diferença nenhuma: 85,1% das mulheres e 85,6% dos homens fizeram eletrocardiograma em até dez minutos do primeiro contato, com P de 0,62. Nessa coorte, a etapa protocolada é a única sem diferença, o que aponta para a discrição de quem decide e não para a biologia.

O terceiro é a prevenção. Num ambulatório universitário de lipídios em Regensburg, na Alemanha, 1.062 pacientes de alto risco (612 homens e 450 mulheres) foram encaminhados entre 2017 e 2022 porque a atenção primária não conseguia controlar o colesterol deles (Muck, 2024). As mulheres chegaram com LDL mais alto (211 mg/dL contra 192, desvios padrão de 79 e 70), relataram intolerância a estatina com mais frequência (48,2% contra 38,9%, P de 0,004) e, na última consulta de seguimento, tinham atingido a meta de LDL adotada no estudo, abaixo de 55 mg/dL ou de 70 mg/dL conforme o risco, com muito menos frequência: 55,5% delas contra 75,8% deles, 20,3 pontos percentuais, com P menor que 0,0001. O artigo registra o contrapeso: boa parte dos pacientes com intolerância a estatina foi tratada com sucesso com combinações orais ou inibidores de PCSK9. É um centro só, e todos ali já haviam falhado no controle lipídico antes do encaminhamento: as taxas absolutas não se transferem para o Brasil, só o contraste entre os sexos.

No Brasil, a ordem dos dois grandes se inverte

A Estatística Cardiovascular Brasil 2023, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, mostra uma diferença brasileira que raramente aparece em material de divulgação. Em 2021 as doenças cardiovasculares causaram 382.507 mortes no país, 21% de todas as mortes. Entre os homens, a doença arterial coronariana foi a segunda principal causa de morte (6,9% de todas as mortes masculinas) e a doença cerebrovascular a terceira (5,3%). Entre as mulheres, a ordem se inverte: a cerebrovascular é a segunda (6,4%) e a coronariana a terceira (6,0%). O diabetes aparece em quarto entre as mulheres (5,2%) e só em sexto entre os homens (3,6%), o que é diretamente relevante para uma classe de medicamento nascida no diabetes.

A mortalidade cardiovascular padronizada por idade caiu de 348,5 por 100.000 em 1990 para 162,2 em 2021, queda de 53,5%, mais acentuada nas mulheres (56%) do que nos homens (50,5%). A taxa segue mais alta nos homens em quase toda idade, e as mulheres passam à frente a partir dos 95 anos. São estimativas modeladas do Global Burden of Disease 2021, não contagem direta de óbitos.

E uma coorte brasileira complica a narrativa fácil. Num estudo prospectivo de 1.362 pessoas tratadas com angioplastia primária por infarto com supradesnivelamento do segmento ST num hospital universitário de Porto Alegre entre 2011 e 2021, 468 (34,4%) eram mulheres (Milan, 2023). Elas chegaram mais velhas e mais doentes: mais hipertensão (73% contra 60%, P menor que 0,001), mais diabetes (32% contra 25%, P de 0,003), mais Killip 3 ou 4 na admissão (17% contra 12%, P de 0,01) e escore TIMI mais alto (mediana de 4 contra 3, P menor que 0,001). A mortalidade hospitalar não diferiu (12,8% contra 10,5%, P de 0,20) e os eventos adversos de longo prazo ficaram no limite (28,7% contra 24,4%, P de 0,089). Depois do ajuste multivariável, que remove sobretudo a idade, o sexo feminino não se associou a eventos adversos (razão de risco 1,14, de 0,86 a 1,51, P de 0,36).

Não é a balança que explica o resultado

Se o benefício do SELECT viesse do peso perdido, quem perdeu mais peso teria tido menos eventos. Uma análise pré-especificada testou isso e não encontrou (Deanfield, 2025): entre as pessoas que receberam semaglutida, não houve tendência linear ligando o peso perdido até a semana 20 ao risco posterior de evento cardiovascular.

A circunferência da cintura foi a única medida que acompanhou o efeito, e mesmo essa associação foi pequena: cerca de 33% do benefício observado sobre eventos cardiovasculares graves foi mediado pela redução da cintura (razão de risco 0,86, de 0,77 a 0,97, depois de ajuste para a mudança de cintura ao longo do tempo). A conclusão do artigo é que o efeito cardioprotetor foi independente da adiposidade inicial e da perda de peso, tendo apenas uma associação pequena com a circunferência da cintura. O artigo não publica um resultado separado por sexo para essa análise, então ela não responde nada sobre diferença entre mulheres e homens.

O mesmo artigo traz o paradoxo que vem ao lado: no grupo placebo, perder peso esteve associado a maior risco de eventos cardiovasculares. O artigo relata a associação sem oferecer explicação causal. Uma leitura possível, que é interpretação e não achado do estudo, é que em quem já tem doença cardiovascular estabelecida a perda de peso não buscada costuma ser sinal de outra coisa acontecendo. Perda de peso que ninguém buscou é assunto para um profissional de saúde habilitado, não para uma leitura de artigo.

Uma evidência separa as duas ideias, vinda de um conjunto com matrícula equilibrada entre os sexos. No programa STEP-HFpEF agrupado (NCT04788511 mais NCT04916470), 1.145 pessoas com insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada e obesidade foram sorteadas, e 570 delas, 49,7% conforme o artigo, eram mulheres (Verma, 2024). A semaglutida 2,4 mg reduziu o peso significativamente mais nas mulheres, com redução ajustada pelo placebo de 9,6% (intervalo de 10,9 a 8,4) contra 7,2% nos homens (de 8,4 a 6,0) e P de interação de 0,006. E melhorou os sintomas de insuficiência cardíaca em quantidade estatisticamente indistinguível: 7,6 pontos no questionário de Kansas City nas mulheres (de 4,5 a 10,7) e 7,5 nos homens (de 4,3 a 10,6), com P de interação de 0,94. Distância de caminhada e o desfecho composto hierárquico também não diferiram (P de interação de 0,21 e 0,66). Perder mais peso, ali, não correspondeu a receber mais benefício. Esse artigo abre afirmando que mais mulheres do que homens têm essa forma de insuficiência cardíaca.

Os outros ensaios, incluindo o que não deu superioridade

Os ensaios vizinhos delimitam o que se sabe.

O SOUL testou a semaglutida em comprimido diário em 9.650 pessoas com diabetes tipo 2 e doença aterosclerótica, renal crônica ou ambas, em 444 centros de 33 países, por 47,5 meses em média (McGuire, 2025). Um primeiro evento cardiovascular grave ocorreu em 579 de 4.825 pessoas (12,0%) contra 668 de 4.825 com placebo (13,8%), razão de risco 0,86 (de 0,77 a 0,96) e P de 0,006. As mulheres eram 2.790, ou 28,9%.

O SURPASS-CVOT é o ensaio que não mostrou superioridade (Nicholls, 2025). Ele comparou tirzepatida com dulaglutida, um medicamento ativo que já havia demonstrado reduzir eventos cardiovasculares, e não com placebo, em 13.299 pessoas com diabetes tipo 2 e doença aterosclerótica. Eventos cardiovasculares graves ocorreram em 801 pacientes com tirzepatida (12,2%) e 862 com dulaglutida (13,1%), razão de risco 0,92 e intervalo de 95,3% de 0,83 a 1,01. A não inferioridade foi atingida (P de 0,003). A superioridade não foi (P de 0,09). As mulheres eram 29,0% da população analisada.

O FLOW testou semaglutida 1,0 mg semanal em 3.533 pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, e foi interrompido cedo por benefício (Perkovic, 2024). O desfecho renal composto principal ocorreu em 331 das 1.767 pessoas com semaglutida (18,7%) contra 410 das 1.766 com placebo (23,2%), razão de risco 0,76 (de 0,66 a 0,88) e P de 0,0003; a morte cardiovascular é componente desse composto e teve razão de risco 0,71 (de 0,56 a 0,89). Entre os secundários confirmatórios, eventos cardiovasculares graves ficaram em 0,82 (de 0,68 a 0,98, P de 0,029) e morte por qualquer causa em 0,80 (de 0,67 a 0,95, P de 0,01). Mulheres: 1.069, ou 30,3%.

O SUMMIT inverte o retrato do SELECT: sorteou 731 pessoas com insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada e obesidade, das quais 393 eram mulheres (53,8%) e 338 homens (46,2%), com seguimento mediano de 104 semanas (Packer, 2025). Morte cardiovascular ou piora de insuficiência cardíaca ocorreu em 36 pessoas com tirzepatida (9,9%) contra 56 com placebo (15,3%), razão de risco 0,62 (de 0,41 a 0,95) e P de 0,026. O que puxou o resultado foi a piora de insuficiência cardíaca: 29 contra 52, razão de risco 0,54 (de 0,34 a 0,85). As mortes cardiovasculares foram poucas e apontaram para o outro lado, com intervalo muito largo: 8 contra 5, razão de risco 1,58 (de 0,52 a 4,83).

As descontinuações

No SELECT, eventos adversos que levaram à interrupção permanente do produto do estudo ocorreram em 1.461 pessoas no grupo da semaglutida (16,6%) e em 718 no placebo (8,2%), com P menor que 0,001. É cerca do dobro. No SUMMIT, eventos adversos que levaram à interrupção, principalmente gastrointestinais, ocorreram em 23 pessoas com tirzepatida (6,3%) e em 5 com placebo (1,4%).

Esses dois pares não se comparam entre si. O SELECT tem 17.604 pessoas com doença cardiovascular estabelecida, semaglutida e 3,3 anos de seguimento médio; o SUMMIT tem 731 pessoas com insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada e obesidade, tirzepatida e 104 semanas de seguimento mediano: populações, moléculas e durações diferentes produzem taxas de interrupção diferentes por razões alheias à tolerabilidade.

Sobre diferença entre mulheres e homens em efeitos adversos e interrupção, a resposta honesta é que não se sabe. Nenhum dos 25 ensaios revisados por Zawadka, 2026, com busca encerrada em agosto de 2025 e cobrindo GLP-1 e SGLT-2, publicou resultados de eventos adversos ou de segurança separados por sexo. Os revisores nomeiam isso como lacuna da evidência, não como achado. É um ponto cego que atinge todo mundo.

Seguir ou interromper um tratamento não é decisão que se tome a partir de uma tabela de porcentagens: é conversa para ter com um profissional de saúde habilitado ou com o médico que acompanha o seu caso.

O que isso não prova

Vale fechar pelo que fica de fora, que é onde mora o uso indevido.

O SELECT não mediu prevenção primária. Ninguém ali estava sem doença cardiovascular estabelecida, e o ensaio não diz nada sobre quem usa esse medicamento tendo apenas excesso de peso e nenhum evento cardiovascular prévio. Extrapolar 6,5% contra 8,0% para essa situação é inventar um resultado.

O ensaio também não mediu pessoas com diabetes tipo 2, explicitamente excluídas. Mas dez dos onze ensaios de Siddiqui, 2025, e todos os onze da comparação de GLP-1 de Zawadka, 2026, foram feitos em pessoas com diabetes tipo 2. A base agrupada que responde à pergunta sobre sexo descreve, portanto, uma população diferente da do SELECT, e isso limita o que se pode concluir nas duas direções.

Não existe nenhum resultado brasileiro separado por sexo para nenhum desses ensaios. O Brasil contribuiu com 15 dos 833 endereços registrados do SELECT e teve centros no SOUL, no SURPASS-CVOT e no FLOW, mas nenhum resultado específico do país, por sexo ou por qualquer outro recorte, foi publicado. E as coortes que sustentam a parte deste artigo sobre atendimento são norte-americana, australiana e alemã: só os contrastes internos a cada uma se transferem, nunca as taxas absolutas.

Por fim, a distinção que sustenta tudo: um desfecho medido não é uma promessa. O SELECT mediu o que aconteceu, em média, em 17.604 pessoas com uma história clínica específica, ao longo de 3,3 anos. Não diz o que vai acontecer com ninguém em particular, e este texto não tem como dizer o que esses números significam para o seu caso. Isso depende do seu histórico, dos seus exames e dos seus outros medicamentos, e é conversa para ter com um profissional de saúde habilitado ou com o médico que acompanha o seu caso.

Fontes

  • Ensaio SELECT, fonte primária deste artigo — Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM, Deanfield J, Emerson SS, et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes. N Engl J Med. 2023;389(24):2221-2232. doi.org
  • Registro do SELECT na ClinicalTrials.gov, de onde vêm as contagens por componente e o número de endereços do estudo — Novo Nordisk A/S. Semaglutide Effects on Heart Disease and Stroke in Patients with Overweight or Obesity (SELECT). ClinicalTrials.gov, identificador NCT03574597, seção de resultados, registro consultado em 21 de setembro de 2026. clinicaltrials.gov
  • Revisão sistemática sobre representação e efeito por sexo nos ensaios cardiovasculares — Zawadka M, Taguiam E, Lê ML, Sanjanwala R, Liu S, Shah AH, Kunutsor SK. Sex differences in trial representation and the cardiovascular effectiveness of newer glucose-lowering agents in patients with and without type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis of cardiovascular outcome trials. Diabetes Obes Metab. 2026;28(3):2183-2202. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Meta-análise de eficácia por sexo dos agonistas de GLP-1 — Siddiqui HF, Ali D, Sajid M, Qureshi S, Siddiqui H, Hasan A, Ripley D, Ahmed R, Waqas SA. Sex differences in the efficacy of GLP-1 receptor agonists: A systematic review and meta-analysis of cardiovascular and renal outcome trials. Diabetes Obes Metab. 2025;27(12):6847-6856. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Análise pré-especificada do SELECT em insuficiência cardíaca, de onde vem a ausência de diferença de benefício por sexo — Deanfield J, Verma S, Scirica BM, Kahn SE, Emerson SS, Ryan D, Lingvay I, Colhoun HM, Plutzky J, Kosiborod MN, et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in patients with obesity and prevalent heart failure: a prespecified analysis of the SELECT trial. Lancet. 2024;404(10454):773-786. doi.org
  • Módulos de características basais dos treze registros de ensaios usados na tabela de matrícula — U.S. National Library of Medicine. ClinicalTrials.gov, módulos de características basais dos registros NCT03574597, NCT03914326, NCT04255433, NCT03819153, NCT04788511, NCT04847557, NCT03552757, NCT04657003, NCT03548935, NCT03611582, NCT03548987, NCT04074161 e NCT04184622, consultados em 21 de setembro de 2026. clinicaltrials.gov
  • Registro norte-americano de infarto: apresentação sem dor no peito e mortalidade hospitalar por sexo e idade — Canto JG, Rogers WJ, Goldberg RJ, Peterson ED, Wenger NK, Vaccarino V, Kiefe CI, Frederick PD, Sopko G, Zheng ZJ. Association of age and sex with myocardial infarction symptom presentation and in-hospital mortality. JAMA. 2012;307(8):813-822. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Registro cardíaco do estado de Victoria, na Austrália: tempos até o tratamento do infarto por sexo — Stehli J, Dinh D, Dagan M, Duffy SJ, Brennan A, Smith K, Andrew E, Nehme Z, Reid CM, Lefkovits J, Stub D, Zaman S. Sex Differences in Prehospital Delays in Patients With ST-Segment-Elevation Myocardial Infarction Undergoing Percutaneous Coronary Intervention. J Am Heart Assoc. 2021;10(13):e019938. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Ambulatório universitário de lipídios em Regensburg, na Alemanha: intolerância a estatina e alcance da meta de LDL por sexo — Muck MA, Fischer M, Hamerle M, Strack C, Holzhaeuer M, Pfeffer D, Hubauer U, Maier LS, Baessler A. Sex specific analysis of patients with and without reported statin intolerance referred to a specialized outpatient lipid clinic. Biol Sex Differ. 2024;15(1):67. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Estatística Cardiovascular Brasil 2023, da Sociedade Brasileira de Cardiologia — Oliveira GMM, Brant LCC, Polanczyk CA, Malta DC, Biolo A, Nascimento BR, Souza MFM, et al. Estatística Cardiovascular, Brasil 2023. Arq Bras Cardiol. 2024;121(2):e20240079. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Coorte brasileira de angioplastia primária em hospital universitário de Porto Alegre — Milan VB, Alves YFS, Machado GP, Araujo GN, Krepsky AM, Chies A, Niches M, Fracasso J, Goncalves SC, Wainstein M, Polanczyk CA. Sex Differences in Outcomes of ST Elevation Myocardial Infarction Patients Submitted to Primary Percutaneous Coronary Intervention. Arq Bras Cardiol. 2023;120(6):e20220673. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Análise pré-especificada do SELECT sobre adiposidade e mediação do benefício — Deanfield J, Lincoff AM, Kahn SE, Emerson SS, Lingvay I, Scirica BM, et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes by baseline and changes in adiposity measurements: a prespecified analysis of the SELECT trial. Lancet. 2025;406(10516):2257-2268. doi.org
  • Eficácia por sexo no programa STEP-HFpEF agrupado — Verma S, Butler J, Borlaug BA, Davies M, Kitzman DW, Shah SJ, Petrie MC, et al. Efficacy of Semaglutide by Sex in Obesity-Related Heart Failure With Preserved Ejection Fraction: STEP-HFpEF Trials. J Am Coll Cardiol. 2024;84(9):773-785. doi.org
  • Ensaio SOUL, semaglutida oral — McGuire DK, Marx N, Mulvagh SL, Deanfield JE, Inzucchi SE, Pop-Busui R, et al. Oral Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in High-Risk Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2025;392(20):2001-2012. doi.org
  • Ensaio SURPASS-CVOT, o que não mostrou superioridade — Nicholls SJ, Pavo I, Bhatt DL, Buse JB, Del Prato S, Kahn SE, et al. Cardiovascular Outcomes with Tirzepatide versus Dulaglutide in Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2025;393(24):2409-2420. doi.org
  • Ensaio FLOW, desfecho renal — Perkovic V, Tuttle KR, Rossing P, Mahaffey KW, Mann JFE, Bakris G, et al. Effects of Semaglutide on Chronic Kidney Disease in Patients with Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2024;391(2):109-121. doi.org
  • Ensaio SUMMIT, insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada com obesidade — Packer M, Zile MR, Kramer CM, Baum SJ, Litwin SE, Menon V, Ge J, et al. Tirzepatide for Heart Failure with Preserved Ejection Fraction and Obesity. N Engl J Med. 2025;392(5):427-437. doi.org
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