Coração e risco metabólico

Esteatose hepática leve no ultrassom: o que o laudo diz e o que ele não consegue dizer

A frase "esteatose hepática leve" aparece no laudo do ultrassom e quase nunca vem com explicação. O exame vê gordura, não vê inflamação nem fibrose, e a sensibilidade de 84,8% que se atribui a ele foi medida contra esteatose moderada a grave, com os laudos leves contados junto com os normais, como ausência de doença. Este artigo reúne o que mudou na nomenclatura em 2023, a prevalência e a diferença entre os sexos que as fontes disputam por um fator de quase dois, os limiares do FIB-4 e do NFS com suas falhas conhecidas por idade, quanto de perda de peso está associado a cada desfecho hepático e o que os dois medicamentos aprovados para MASH mediram de fato.

A frase do laudo, e o que ela descreve

O laudo costuma dizer algo assim: "ecogenicidade hepática difusamente aumentada, compatível com esteatose hepática leve". Ela aparece entre uma linha sobre a vesícula e outra sobre os rins, ninguém comenta, e a consulta termina com a folha na sua mão.

O que o aparelho registrou foi brilho. O ultrassom abdominal comum, em modo B, mede como o som volta dos tecidos, e um fígado com gordura nas células devolve mais eco. O examinador classifica o achado como leve, moderado ou acentuado. É leitura visual, não medida em gramas nem porcentagem de células.

"Leve" descreve o quanto o fígado pareceu brilhante naquele exame, naquele aparelho, com aquele examinador. E o ultrassom comum não enxerga inflamação nem fibrose, os dois processos que decidem o que acontece com o fígado ao longo das décadas. Um laudo de esteatose leve não afirma que existe inflamação, e tampouco afirma que ela não existe.

O que o ultrassom consegue e não consegue ver

A metanálise de Hernaez, 2011, reuniu 49 estudos e 4.720 participantes que fizeram ultrassom e biópsia hepática. Na análise principal, com 34 estudos e 2.815 participantes, a sensibilidade foi de 84,8% (IC 95% 79,5 a 88,9) e a especificidade, de 93,6% (87,2 a 97,0).

Esses números têm alvo específico: a esteatose moderada a grave na biópsia, definida como 20% a 30% ou mais dos hepatócitos com gordura. Os laudos classificados como leves foram somados aos normais e contados como ausência de esteatose. O 84,8% não descreve o desempenho do exame para o achado que aparece quando o laudo diz leve.

A variação entre os estudos é grande: sensibilidade de 55% a 100%, especificidade de 26% a 100%. E a concordância entre dois examinadores chega a 0,44.

A população importa: os 49 estudos vão de 1979 a 2010, 27 deles hospitalares, e nenhum tem estrato brasileiro. São números de gente encaminhada para biópsia, não de rastreamento na comunidade. Sem dados individuais, os autores não avaliaram desempenho por subgrupos, e nomeiam dois que ficaram sem medida: o IMC e a espessura de gordura subcutânea, que diferem por sexo. Não há resultado separado por sexo em ponto algum do estudo: ausência de medida, não equivalência demonstrada.

De DHGNA para MASLD: o que mudou em 2023

Em junho de 2023, um processo Delphi conduzido sob os auspícios da AASLD e da EASL, em colaboração com a ALEH, a associação latino-americana, substituiu "doença hepática gordurosa não alcoólica" (DHGNA, ou NAFLD em inglês) por "doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica" (MASLD), e "esteato-hepatite não alcoólica" (NASH) por MASH.

Participaram 236 painelistas de 56 países, especialistas de várias áreas e também representantes de organizações de pacientes, em quatro rodadas, com consenso definido a priori como supermaioria de 67%. Setenta e quatro por cento consideraram a nomenclatura antiga falha o bastante para justificar a troca, e os termos "não alcoólica" e "gordurosa" foram julgados estigmatizantes por 61% e 66% dos respondentes. Entre os 223 painelistas que responderam à tabela demográfica havia 88 mulheres e 135 homens.

A revisão da JAMA de 2026 (Tilg, 2026) resume o que a MASLD exige hoje: esteatose hepática, em geral vista no ultrassom, mais pelo menos 1 de 5 características da síndrome metabólica, e ausência de outras causas conhecidas de esteatose, como uso de certos medicamentos (corticoides, tamoxifeno, metotrexato), hepatite C ou sobrecarga de ferro.

Os cinco critérios são sobrepeso ou obesidade ou circunferência abdominal elevada, pré-diabetes ou diabetes tipo 2, pressão arterial elevada, triglicerídeos elevados e HDL baixo. Dois têm pontos de corte assimétricos por sexo: no ELSA-Brasil, a circunferência foi contada como elevada acima de 94 cm em homens e acima de 80 cm em mulheres, e o HDL, como baixo em 40 mg/dL ou menos em homens e 50 mg/dL ou menos em mulheres. A mesma medida cruza o critério em um sexo e não no outro. Entre as 2.298 pessoas com MASLD daquele estudo, 82,5% tinham IMC de 25 kg/m² ou mais e 77,6%, circunferência elevada.

Quantas pessoas têm, no mundo e no Brasil

A revisão da JAMA de 2026 a descreve como a doença hepática crônica mais comum do mundo, atingindo cerca de 30% a 40% dos adultos, com prevalência variável entre continentes, 60% a 70% das pessoas com diabetes tipo 2 e 70% a 80% das pessoas com obesidade. Essa faixa é global, não brasileira.

A estimativa modelada do Global Burden of Disease 2021 (Feng, 2025) calcula cerca de 1,27 bilhão de casos prevalentes no mundo. Um dado interessa a quem mora aqui: entre os 204 países analisados, o Brasil registrou a maior taxa nacional de incidência anual padronizada por idade em 2021, 1.407,1 casos por 100 mil (1.221,7 a 1.659,1). É modelagem, com as premissas que isso carrega.

O número brasileiro medido em pessoas vem do ELSA-Brasil, e exige ressalva. Entre 7.073 servidores públicos de 35 a 74 anos que fizeram ultrassom abdominal em seis capitais entre 2008 e 2010, 33,9% tinham esteatose pelos critérios de NAFLD e 32,5% preenchiam os de MASLD. Essa subamostra já excluía quem tinha diabetes, quem bebia acima do limite e quem tinha cirrose ou hepatite. Não é prevalência populacional: é a de uma amostra selecionada, medida há mais de quinze anos. Não existe estimativa nacional representativa de esteatose hepática no Brasil.

Homens e mulheres: onde a diferença é real e onde é disputada

Quanto a MASLD é mais comum em homens é uma pergunta em aberto, e duas fontes de peso discordam por um fator de quase dois. A revisão da JAMA de 2026 afirma uma razão homem para mulher de aproximadamente 2. O Global Burden of Disease 2021 encontra 15.731,4 casos por 100 mil homens contra 14.310,6 por 100 mil mulheres, razão de 1,10. Leitura nossa, e não das fontes: uma razão próxima de 2 costuma vir de casuísticas clínicas, enquanto 1,10 vem de um modelo. Elas não discutem uma à outra, e a leitura honesta é publicar as duas.

O ELSA-Brasil cai entre elas, por derivação nossa a partir da tabela publicada, já que os autores não fizeram a conta: dos 7.073 participantes, 2.871 eram homens e 4.202 mulheres; das 2.298 com MASLD, 1.124 eram homens e 1.174 mulheres. Isso dá 39,1% dos homens e 27,9% das mulheres, razão de 1,40. Como a amostra excluiu quem já tinha diabetes, mais frequente em homens, a exclusão tende a subestimar o excesso masculino em vez de inflá-lo; esse raciocínio também é nosso.

A diferença mais nítida não está em quantas pessoas têm, e sim em quando. No Global Burden of Disease 2021, a prevalência atinge o pico entre 45 e 49 anos nos homens e entre 50 e 54 anos nas mulheres, cinco anos mais tarde. Os autores levantam a menopausa como explicação possível, sem afirmá-la: escrevem que a diferença "pode estar relacionada ao estado menopausal". Nessa mesma estimativa a prevalência é menor nas mulheres, e ainda assim elas acumularam mais anos vividos com incapacidade por MASLD do que os homens.

O achado central corre nos dois sentidos ao mesmo tempo. A metanálise de Balakrishnan, 2021, reuniu 54 estudos e não informa a composição por países. Nas mulheres, encontrou risco 19% menor de ter a doença na população geral (RR 0,81; IC 95% 0,68 a 0,97; I² 97,5%), risco praticamente igual de esteato-hepatite (RR 1,00; 0,88 a 1,14) e risco 37% maior de fibrose avançada uma vez instalada a doença (RR 1,37; 1,12 a 1,68; I² 74,0%). A idade modifica o efeito: em populações com idade média de 50 anos ou mais, o risco de esteato-hepatite nas mulheres foi 17% maior (RR 1,17; 1,01 a 1,36) e o de fibrose avançada, 56% maior (RR 1,56; 1,36 a 1,80; I² 0). Em populações mais jovens, as diferenças se atenuam. Os 19%, os 37% e os 56% são riscos relativos agrupados, e a metanálise não publica incidência absoluta: dizem quanto um grupo difere do outro, não quantas pessoas adoecem em cada um.

Citar apenas a prevalência menor entregaria a impressão exatamente errada: menos mulheres adoecem, e as que adoecem progridem mais. A origem de cada metade difere: a prevalência vem de amostras populacionais; esteato-hepatite e fibrose, de coortes com biópsia.

Menopausa, SOP e o fígado

A menopausa está associada a uma chance cerca de 2,4 vezes a de mulheres na pré-menopausa de ter esteatose hepática. A metanálise de Jaroenlapnopparat, 2023, reuniu 12 estudos transversais entre 587 triados e chegou a um OR agrupado de 2,37 (IC 95% 1,99 a 2,82; I² 73%). A associação se manteve na análise restrita aos 6 estudos que ajustaram por idade e fatores metabólicos: OR 2,19 (1,73 a 2,78; I² 74%). Por serem transversais, medem associação com esteatose presente, não risco ao longo do tempo, e o trabalho não informa os países dos 12 estudos.

A diretriz conjunta europeia de 2024, da EASL com a EASD e a EASO, nomeia três grupos com risco aumentado de fibrose progressiva: homens acima de 50 anos, mulheres na pós-menopausa e pessoas com múltiplos fatores de risco cardiometabólico. E registra um ponto que interessa a quem está em faixa de peso considerada normal: entre quem já tem MASLD, o risco de fibrose grave é maior nas mulheres pós-menopáusicas com peso normal do que nas pré-menopáusicas de mesmo peso. A diretriz atribui essa associação, em parte, à idade mais avançada e à mudança na composição da gordura corporal. Ela não trata de terapia hormonal da menopausa, e não localizamos dados sobre se ela modifica o risco ou a progressão. O que muda no metabolismo nessa transição está no guia de perimenopausa e em perimenopausa e metabolismo.

Sobre a síndrome dos ovários policísticos, a metanálise de Shengir, 2021, com 23 estudos e 7.148 participantes (4.164 casos de SOP e 2.984 controles), encontrou nas mulheres na pré-menopausa com SOP uma chance cerca de 2,5 vezes a das sem SOP de ter esteatose: OR 2,49 (IC 95% 2,20 a 2,82; I² 55,2%). O risco acompanha o peso: entre as participantes com sobrepeso ou obesidade, a chance foi 3,84 vezes a das controles de mesmo peso (3,25 a 4,54), enquanto entre as mulheres magras com SOP, comparadas a controles magras, não houve risco aumentado (OR 0,98; 0,077 a 1,25).

Há um dado regional. O subgrupo de maior risco entre as três regiões analisadas foi o da América do Sul somada ao Oriente Médio, agrupamento de 6 estudos que os próprios autores combinaram, com OR 3,55 (2,27 a 5,55), contra 2,63 na Ásia e 2,22 na Europa. Não existe um OR só sul-americano nesse trabalho, mas três dos quatro estudos sul-americanos incluídos são brasileiros, e dois deles estão dentro do subgrupo de 6 que produziu o OR 3,55.

Menopausa e SOP mudam coisas diferentes: a diretriz europeia coloca a pós-menopausa entre os grupos com risco aumentado de fibrose progressiva, e Shengir mede a SOP contra a esteatose, não contra a fibrose. Quem junta essas peças com os seus exames e decide o passo seguinte é um profissional de saúde habilitado.

FIB-4, NFS e elastografia: o que vem depois do ultrassom

O ultrassom abdominal comum não mede fibrose. A elastografia hepática também é feita com ultrassom e mede outra coisa: a rigidez do fígado, não a gordura. Saber disso evita confundir um encaminhamento com repetição de exame.

A diretriz EASL-EASD-EASO de 2024 recomenda um caminho em etapas que começa pelo FIB-4, cálculo feito com idade, TGO (AST), TGP (ALT) e plaquetas. Os limiares, transcritos da diretriz:

Resultado do FIB-4O que a diretriz EASL-EASD-EASO de 2024 diz
Abaixo de 1,3Risco baixo de fibrose avançada; reavaliação a cada 1 a 3 anos
Acima de 1,3, ou acima de 2,0 em quem tem mais de 65 anosRisco de fibrose avançada aumentado; o passo seguinte é a elastografia. Na faixa intermediária de 1,3 a 2,67, a diretriz registra capacidade limitada do FIB-4 para detectar fibrose, como também em idosos e em pessoas com diabetes tipo 2

A diretriz publica os limites do instrumento. Abaixo de 1,3, o FIB-4 deixa passar cerca de 10% das pessoas com fibrose avançada; acima de 1,3, o valor preditivo positivo baixo produz muitos falsos positivos. FIB-4 e NFS têm acurácia moderada para prever fibrose em estágio F3 ou maior, com áreas sob a curva de cerca de 0,77 e 0,75.

A limitação por idade é mais dura, e está em McPherson, 2017, com 634 pacientes de quatro centros terciários europeus. Os escores foram desenvolvidos e validados principalmente em pessoas de 35 a 65 anos. Até os 35, nenhum dos três escores testados discriminou: as áreas sob a curva foram 0,52, 0,52 e 0,60, sem significância estatística. A partir dos 65, com os cortes de triagem habituais (FIB-4 de 1,3 e NFS de menos 1,445), a especificidade cai para 35% e 20%, taxa de falsos positivos que os autores chamam de inaceitável. Em todos os grupos acima de 35 anos, os escores ficam na faixa de 0,77 a 0,84. Para 65 anos ou mais, eles derivaram novos cortes, FIB-4 de 2,0 e NFS de 0,12, que elevam a especificidade para 70%.

Duas leituras decorrem disso. Os 35% e os 20% valem para os cortes de exclusão: cruzá-los significa "não dá para descartar", não "tem fibrose avançada". E a fração dos alterados que é falso positivo depende da prevalência de fibrose avançada na população testada, que na coorte deles era 25%, alta por viés de seleção.

O FIB-4 não usa sexo na fórmula, e a diretriz não publica desempenho separado por sexo. Nesse mesmo estudo europeu, idade crescente esteve significativamente associada ao sexo feminino (p<0,001): a faixa etária em que os escores mais erram é também a mais feminina da coorte. Fica ainda uma interação sem medida: a fibrose avançada é mais frequente em mulheres depois dos 50, e a especificidade dos escores despenca depois dos 65. Nada disso é veredito sobre o seu número: quem lê um resultado e decide o passo seguinte é um profissional de saúde habilitado.

Onde entra o álcool, e onde fica a linha

A fronteira entre MASLD e doença hepática associada ao álcool é quantitativa e assimétrica por sexo. O consenso de 2023 fixou as quantidades em gramas por semana:

ClassificaçãoMulheresHomens
MASLDMenos de 140 g por semana (menos de 20 g por dia, menos de 2 doses padrão)Menos de 210 g por semana (menos de 30 g por dia, menos de 3 doses padrão)
MetALDDe 140 a 350 g por semana (20 a 50 g por dia)De 210 a 420 g por semana (30 a 60 g por dia)

MetALD é uma categoria criada em 2023 para quem tem disfunção metabólica e consumo relevante de álcool ao mesmo tempo, descrita no consenso como um contínuo, predominantemente metabólico ou predominantemente alcoólico. Acima dessas faixas, deixa de ser MetALD.

A assimetria entre os sexos não é constante. No limite de entrada, o teto do homem é 1,5 vez o da mulher (210 contra 140 g por semana). No limite superior, a diferença cai para 1,2 vez (420 contra 350). A mesma quantidade de bebida pode classificar uma mulher e um homem em categorias diagnósticas distintas.

Perder peso: quanto é preciso para cada desfecho

A diretriz EASL-EASD-EASO de 2024 organiza a perda de peso em degraus, e os degraus têm número. Para adultos com MASLD e excesso de peso, ela recomenda:

Perda sustentada de pesoDesfecho hepático na recomendação
5% ou maisReduzir a gordura hepática
7% a 10%Melhorar a inflamação hepática
10% ou maisMelhorar a fibrose

A recomendação foi aprovada com 100% de concordância do painel. O estudo que a embasa acompanhou 293 pessoas com esteato-hepatite comprovada por biópsia num centro de referência em Havana, Cuba, entre 2009 e 2013, por 52 semanas, com biópsia repetida ao final (Vilar-Gomez, 2015). Entre quem chegou a perder 10% ou mais do peso, 90% tiveram resolução da esteato-hepatite e 45% tiveram regressão da fibrose. Os dois números precisam do denominador: das 293 pessoas, só 88, ou 30%, perderam ao menos 5% do peso, e o grupo dos 10% ou mais é um subconjunto dessas 88, de tamanho não publicado.

É análise exploratória de subgrupo. Participantes com perfil que incluía sexo feminino, IMC de 35 kg/m² ou mais, glicemia de jejum acima de 5,5 mmol/L, cerca de 99 mg/dL, e muitas células balonizadas só tiveram redução significativa do escore de atividade com perdas de 10% ou mais, enquanto quem tinha poucos fatores de risco já melhorava na faixa de 7% a 10%. Para uma parte das mulheres, o degrau útil é o mais alto da escala.

A diretriz registra dois limites. A evidência sobre fibrose avançada e cirrose ainda é insuficiente. E a adesão de longo prazo costuma falhar: perda máxima aos 6 meses, reganho gradual até um saldo de cerca de 5% entre 12 e 24 meses, com retomada parcial da gordura e da rigidez hepáticas. Esse padrão de reganho está no guia de manejo de peso, e a leitura de que ele seria falta de disciplina, em força de vontade não é o mecanismo.

O que existe de terapia aprovada, e o que os ensaios mediram

Dois medicamentos receberam aprovação acelerada específica para MASH nos Estados Unidos, os dois testados com biópsia e com maioria feminina.

No ensaio de fase 3 ESSENCE (Sanyal, 2025), 1.197 pessoas com MASH comprovada por biópsia e fibrose em estágio 2 ou 3 foram sorteadas 2 para 1 para semaglutida 2,4 mg por semana ou placebo. Na análise interina, com as primeiras 800 pessoas em 72 semanas, houve resolução da esteato-hepatite sem piora da fibrose em 62,9% contra 34,3% do placebo (diferença estimada de 28,7 pontos percentuais; IC 95% 21,1 a 36,2) e melhora da fibrose sem piora da esteato-hepatite em 36,8% contra 22,4% (diferença de 14,4 pontos; 7,5 a 21,3).

A população era 57,1% feminina, cerca de 457 mulheres e 343 homens, com idade média de 56 anos, IMC médio de 34,6 kg/m², 55,5% de diabetes tipo 2 e 68,8% com fibrose em estágio 3 (Newsome, 2024). O resultado não é um achado "de homens" transposto para mulheres: é, na maioria, um achado medido em mulheres. O ensaio analisou os desfechos por subgrupo e o efeito se manteve consistente entre homens e mulheres, entre faixas de idade, com e sem diabetes e entre faixas de IMC. A exceção foi a melhora da fibrose em pessoas com IMC abaixo de 27 kg/m², em que a diferença contra o placebo não foi significativa. São análises de subgrupo, algumas em grupos pequenos: apoiam o resultado principal, não o substituem.

A semaglutida 2,4 mg recebeu aprovação acelerada do FDA em agosto de 2025 para MASH com fibrose moderada a avançada (estágios F2 a F3), e a aprovação definitiva depende de desfechos de longo prazo. Segundo a orientação da AASLD de novembro de 2025, a seleção de quem tratar é feita por exames não invasivos (VCTE de 8 a 15 kPa, elastografia por ressonância de 3,1 a 4,4 kPa ou ELF de 9,2 a 10,5), e não por biópsia, impraticável e desnecessária para a maioria. A orientação manda monitorar lesão renal aguda por desidratação, doença sintomática da vesícula biliar, pancreatite, tumores de células C da tireoide, progressão de retinopatia e perda de massa magra. As diferenças entre as moléculas da classe estão em liraglutida, semaglutida e tirzepatida.

A alternativa é o resmetirom, primeiro medicamento aprovado especificamente para MASH, com aprovação acelerada nos Estados Unidos em março de 2024. No MAESTRO-NASH (Harrison, 2024), com 966 pessoas analisadas entre 1.050 sorteadas, a resolução da esteato-hepatite sem piora da fibrose em 52 semanas foi de 25,9% na dose de 80 mg e 29,9% na de 100 mg, contra 9,7% no placebo. Também aqui a maioria era feminina, 56,1%, cálculo nosso a partir da tabela do ensaio, que reporta 424 homens entre os 966; os desfechos principais foram analisados por sexo, com resultados consistentes. Segundo a diretriz europeia de 2024, os efeitos adversos mais frequentes foram diarreia (até 33%), náusea (até 22%), prurido (até 11%) e vômito (até 11%). A população era 89,3% branca e 2,0% negra, com 21,1% de hispânicos, e não há subgrupo latino-americano publicado para nenhum dos dois ensaios.

Três limites fecham o capítulo. Os dois ensaios não podem ser comparados entre si: populações e desenhos diferem (F2 a F3 no ESSENCE, F1B a F3 no MAESTRO-NASH), e a AASLD registra que a combinação nunca foi estudada. Nenhum desfecho publicado é clínico: são leituras de lâmina em 52 e 72 semanas, com desfechos clínicos planejados para 240 semanas e 54 meses, ainda não publicados. E as duas aprovações são decisões do FDA; este texto não afirma o que está registrado ou indicado no Brasil.

Por que este é um capítulo de coração, e não só de fígado

A revisão da JAMA de 2026 ordena as causas de morte em quem tem MASLD assim: primeiro a doença cardiovascular, depois certos cânceres fora do fígado (principalmente gastrointestinais, de mama e ginecológicos) e só então as complicações hepáticas, incluindo cirrose e carcinoma hepatocelular.

O risco cardiovascular foi medido separadamente por sexo, e a diferença é desfavorável à mulher. A metanálise de Jamalinia, 2025, reuniu 36 coortes internacionais com cerca de 18,5 milhões de pessoas (25% com MASLD, 48% mulheres, idade média de 50,2 anos), e em seguimento mediano de 6,9 anos ocorreram cerca de 515 mil eventos cardiovasculares fatais e não fatais, 42% deles em mulheres. A MASLD associou-se a risco maior de evento nas mulheres (HR agrupado 1,59; IC 95% 1,44 a 1,75) do que nos homens (HR 1,37; 1,27 a 1,48), com p de 0,018 para a diferença entre os sexos. Quando a doença hepática era mais grave, o risco nas mulheres foi cerca de 2,4 vezes o de quem não tinha MASLD (HR 2,40; 1,73 a 3,32). O achado vem com a fragilidade ao lado: heterogeneidade altíssima, I² acima de 96% nos dois sexos, estudos que definiram MASLD por métodos muito diferentes, de códigos de diagnóstico a biópsia, e dois intervalos de confiança que quase se tocam. A diferença é real e medida, e não é dramática.

Do lado metabólico, o ELSA-Brasil mediu o que veio depois: em seguimento mediano de 9,43 anos, surgiram 1.157 novos casos de diabetes tipo 2, 16% da amostra. Ter MASLD no início associou-se a um aumento de 88% no risco de desenvolver diabetes (HR ajustado 1,88; IC 95% 1,67 a 2,12), contra 78% pelo critério antigo de NAFLD (HR 1,78; 1,58 a 2,01), com ajuste por dez variáveis. As associações não diferiram significativamente entre grupos de cor/raça (p de interação de 0,10 e 0,08), valores que os autores registram como próximos do critério de 5%. O estudo ajustou por sexo, mas não publicou risco separado para homens e mulheres.

Para contexto de mortalidade, a diretriz europeia de 2024 registra mortalidade por todas as causas de 17,05 por 1.000 pessoas-ano na MASLD (faixa 10,31 a 28,05), número da própria diretriz e não de Younossi, e aponta o estágio de fibrose como o preditor mais forte de mortalidade de causa hepática e de câncer de fígado na MASLD comprovada por biópsia. Na MASH, a metanálise global de Younossi, 2016, reporta mortalidade de causa hepática de 11,77 por 1.000 pessoas-ano (faixa 7,10 a 19,53).

São taxas de população, não uma leitura do seu caso. Quem lê os seus exames e decide o que investigar primeiro é um profissional de saúde habilitado.

O que levar para a próxima consulta

Um laudo de esteatose leve não afirma que existe inflamação, e tampouco afirma que ela não existe. O que transforma aquela frase em avaliação é o conjunto que vai com ela:

  1. O laudo do ultrassom com a data e a palavra exata da classificação, e os anteriores, se houver.
  2. Os quatro dados que entram no FIB-4: idade, TGO (AST), TGP (ALT) e plaquetas.
  3. Os cinco critérios cardiometabólicos: peso e altura, circunferência abdominal, pressão, glicemia ou hemoglobina glicada, triglicerídeos e HDL.
  4. A quantidade de álcool por semana, em doses, sem arredondar para baixo: a linha diagnóstica difere entre mulheres e homens.
  5. A lista de medicamentos e suplementos, porque o diagnóstico exige afastar outras causas.
  6. Se for o caso, a informação sobre menopausa, que a diretriz EASL-EASD-EASO de 2024 nomeia entre os grupos com risco aumentado de fibrose progressiva, e sobre SOP, que a metanálise de Shengir, 2021, associa a maior chance de esteatose.
  7. O histórico de peso e o que já foi tentado, no formato do guia de manejo de peso.

Duas perguntas que cabem nessa conversa são: "qual é o meu FIB-4 com estes exames?" e "pelos critérios atuais, isto é MASLD, MetALD ou outra coisa?".

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Fontes

  • Metanálise da acurácia e da reprodutibilidade do ultrassom para esteatose (fonte primária deste artigo) — Hernaez R, Lazo M, Bonekamp S, Kamel I, Brancati FL, Guallar E, Clark JM. Diagnostic accuracy and reliability of ultrasonography for the detection of fatty liver: a meta-analysis. Hepatology, 2011;54(3):1082-1090. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Consenso Delphi multissocietário que criou os termos MASLD, MASH e MetALD, e fixou os limites de álcool — Rinella ME, Lazarus JV, Ratziu V, Francque SM, Sanyal AJ, Kanwal F, et al. A multisociety Delphi consensus statement on new fatty liver disease nomenclature. Hepatology, 2023;78(6):1966-1986. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Revisão de 2026 sobre MASLD em adultos: critérios diagnósticos, prevalência global e ordem das causas de morte — Tilg H, Petta S, Stefan N, Targher G. Metabolic Dysfunction-Associated Steatotic Liver Disease in Adults: A Review. JAMA, 2026;335(2):163-174. doi.org
  • Coorte brasileira ELSA-Brasil: prevalência, critérios cardiometabólicos e incidência de diabetes tipo 2 — Lopes GW, Canhada SL, Reis RCPD, Diniz MFHS, Goulart AC, Faria LC, Griep RH, Perazzo H, Duncan BB, Schmidt MI. Comparing diabetes prediction based on metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease and nonalcoholic fatty liver disease: the ELSA-Brasil study. Cadernos de Saúde Pública, 2024;40(11):e00009924. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Carga global da MASLD no Global Burden of Disease 2021: prevalência por sexo, pico etário e o dado do Brasil — Feng G, Targher G, Byrne CD, Yilmaz Y, Wong VW-S, et al. Global burden of metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease, 2010 to 2021. JHEP Reports, 2025;7(3):101271. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Metanálise sobre risco menor de ter a doença e risco maior de progressão nas mulheres — Balakrishnan M, Patel P, Dunn-Valadez S, Dao C, Khan V, Ali H, El-Serag L, Hernaez R, Sisson A, Thrift AP, Liu Y, El-Serag HB, Kanwal F. Women Have a Lower Risk of Nonalcoholic Fatty Liver Disease but a Higher Risk of Progression vs Men: A Systematic Review and Meta-analysis. Clinical Gastroenterology and Hepatology, 2021;19(1):61-71.e15. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Metanálise sobre menopausa e esteatose hepática — Jaroenlapnopparat A, Charoenngam N, Ponvilawan B, Mariano M, Thongpiya J, Yingchoncharoen P. Menopause is associated with increased prevalence of nonalcoholic fatty liver disease: a systematic review and meta-analysis. Menopause, 2023;30(3):348-354. doi.org
  • Diretriz clínica EASL-EASD-EASO de 2024: grupos de risco, FIB-4, metas de perda de peso e mortalidade — European Association for the Study of the Liver (EASL), European Association for the Study of Diabetes (EASD), European Association for the Study of Obesity (EASO). EASL-EASD-EASO Clinical Practice Guidelines on the Management of Metabolic Dysfunction-Associated Steatotic Liver Disease (MASLD). Obesity Facts, 2024;17(4):374-444. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Metanálise sobre SOP e esteatose hepática em mulheres na pré-menopausa, com estratificação por IMC e por região — Shengir M, Chen T, Guadagno E, Ramanakumar AV, Ghali P, Deschenes M, Wong P, Krishnamurthy S, Sebastiani G. Non-alcoholic fatty liver disease in premenopausal women with polycystic ovary syndrome: A systematic review and meta-analysis. JGH Open, 2021;5(4):434-445. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Estudo sobre o efeito da idade na acurácia do FIB-4 e do NFS, com os novos cortes acima de 65 anos — McPherson S, Hardy T, Dufour J-F, Petta S, Romero-Gomez M, Allison M, Oliveira CP, Francque S, Van Gaal L, Schattenberg JM, Tiniakos D, Burt A, Bugianesi E, Ratziu V, Day CP, Anstee QM. Age as a Confounding Factor for the Accurate Non-Invasive Diagnosis of Advanced NAFLD Fibrosis. The American Journal of Gastroenterology, 2017;112(5):740-751. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Ensaio cubano com biópsia pareada que embasa os limiares de perda de peso — Vilar-Gomez E, Martinez-Perez Y, Calzadilla-Bertot L, Torres-Gonzalez A, Gra-Oramas B, Gonzalez-Fabian L, et al. Weight Loss Through Lifestyle Modification Significantly Reduces Features of Nonalcoholic Steatohepatitis. Gastroenterology, 2015;149(2):367-378.e5. doi.org
  • Ensaio de fase 3 ESSENCE: semaglutida 2,4 mg em MASH, análise interina de 72 semanas — Sanyal AJ, Newsome PN, Kliers I, Østergaard LH, Long MT, Kjær MS, et al. Phase 3 Trial of Semaglutide in Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis. The New England Journal of Medicine, 2025;392(21):2089-2099. doi.org
  • Características de base e desenho do ESSENCE (composição por sexo, idade, IMC e estágio de fibrose) — Newsome PN, Sanyal AJ, Engebretsen KA, Kliers I, Østergaard L, Vanni D, Bugianesi E, Rinella ME, Roden M, Ratziu V. Semaglutide 2.4 mg in Participants With Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis: Baseline Characteristics and Design of the Phase 3 ESSENCE Trial. Alimentary Pharmacology and Therapeutics, 2024;60(11-12):1525-1533. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Revisão sobre semaglutida 2,4 mg em MASH, fonte das análises de subgrupo do ESSENCE, inclusive por sexo — Valenti L, et al. Focus on Semaglutide 2.4 mg/week for the Treatment of Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis. Liver International, 2025. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Orientação da AASLD sobre semaglutida em MASH: aprovação, seleção por exames não invasivos e monitoramento — Bansal MB, Patton H, Morgan TR, Carr RM, Dranoff JA, Allen AM (American Association for the Study of Liver Diseases). Semaglutide therapy for metabolic dysfunction-associated steatohepatitis: November 2025 updates to AASLD Practice Guidance. Hepatology, publicado on-line em 7 de novembro de 2025; edição 2026;83(5):1326-1340. doi.org
  • Ensaio de fase 3 MAESTRO-NASH: resmetirom em MASH com fibrose — Harrison SA, Bedossa P, Guy CD, Schattenberg JM, Loomba R, Taub R, et al. A Phase 3, Randomized, Controlled Trial of Resmetirom in NASH with Liver Fibrosis. The New England Journal of Medicine, 2024;390(6):497-509. doi.org
  • Metanálise do risco cardiovascular na MASLD com diferença medida entre os sexos — Jamalinia M, Zare F, Mantovani A, Targher G, Lonardo A. Metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease and sex-specific risk of fatal and non-fatal cardiovascular events: A meta-analysis. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025;27(9):5171-5181. doi.org
  • Metanálise global de epidemiologia e desfechos, fonte da mortalidade de causa hepática na MASH — Younossi ZM, Koenig AB, Abdelatif D, Fazel Y, Henry L, Wymer M. Global epidemiology of nonalcoholic fatty liver disease: Meta-analytic assessment of prevalence, incidence, and outcomes. Hepatology, 2016;64(1):73-84. doi.org
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