Coração e risco metabólico

Apneia do sono e peso: o diagnóstico, os números e a diferença entre os sexos

No EPISONO, que mediu 769 adultos da cidade de São Paulo com polissonografia de noite inteira, 44,88% dos homens e 30,79% das mulheres tinham apneia, uma razão de 1,46 para 1. Entre as mulheres, a prevalência ajustada passa de 18,58% na faixa dos 40 aos 49 anos para 42,85% na faixa dos 50 aos 59, e dos 60 aos 69 os dois sexos ficam estatisticamente indistinguíveis (53,41% e 53,31%). Este texto reúne o que está medido sobre o diagnóstico no Brasil, sobre a apresentação diferente nas mulheres e sobre o que os estudos mediram entre peso e apneia, com os limites de cada estudo declarados.

Quem percebe primeiro quase nunca é você

O sinal principal da apneia obstrutiva do sono acontece enquanto a pessoa dorme. Quem ouve é outra pessoa, e quem dorme sem companhia pode conviver com ela por anos sem ouvir a primeira frase do diagnóstico.

O exame conta eventos respiratórios: apneias, quando a respiração para, e hipopneias, quando ela fica superficial o bastante para reduzir o fluxo de ar. Cada um costuma terminar em queda na saturação de oxigênio e num despertar curto demais para ser lembrado. A soma por hora de sono é o índice de apneia e hipopneia, o IAH.

A consequência é dupla: o sono se fragmenta, o que explica dormir oito horas e acordar como se tivesse dormido quatro, e o oxigênio oscila a noite inteira.

Este artigo não trata de higiene do sono, que está no guia de sono. O tema é diagnóstico, diferença entre os sexos e peso.

Quantas pessoas têm apneia, medido por polissonografia

A prevalência brasileira medida por polissonografia, e não por questionário, vem da 4ª edição do EPISONO, o estudo do sono da cidade de São Paulo publicado por Tufik e colegas em 2026: 769 adultos de 20 a 80 anos, 452 mulheres e 317 homens, medidos em laboratório em 2018 e 2019.

A prevalência ajustada foi de 37,12% da amostra (IC 95% de 33,71% a 40,53%): 44,88% entre os homens, 30,79% entre as mulheres, razão de 1,46 para 1. Por gravidade, 17,67% leve, 11,53% moderada e 7,92% grave.

Esse 1,46 para 1 é bem menor do que as razões de 2 para 1 ou 3 para 1 que o próprio EPISONO cita de séries de ambulatório de sono. Quase uma em cada três paulistanas da amostra tinha apneia medida em laboratório, e a frase "apneia é doença de homem" não sobrevive a esse número.

Na regressão logística do estudo, ser homem foi associado a uma razão de chances de 3,00 (IC 95% de 2,14 a 4,20), cada ano de idade a 1,05 e cada unidade de IMC a 1,04. A classe socioeconômica não teve associação significativa.

Uma segunda referência vem da Suíça. O HypnoLaus mediu 2.121 adultos de 40 a 85 anos (mediana de 57) de Lausanne com polissonografia domiciliar: 49,7% dos homens e 23,4% das mulheres tinham distúrbio respiratório do sono de moderado a grave, com IAH mediano de 14,9 eventos por hora neles e 6,9 nelas. O IMC médio da coorte era 25,6, bem abaixo do piso de 30 exigido pelo SURMOUNT-OSA: apneia não se restringe a pessoas com obesidade, em nenhum dos sexos.

As duas contagens não usam a mesma definição de caso: o HypnoLaus contou um IAH igual ou maior que 15, sem exigir sintomas, e o EPISONO contou a partir de cinco, exigindo sintomas para a faixa leve. E o resultado não corre na mesma direção nos dois sexos: entre os homens o número suíço é o mais alto (49,7% contra 44,88%), entre as mulheres é o paulistano (30,79% contra 23,4%).

Dos 40 aos 60, a diferença entre os sexos praticamente desaparece

O EPISONO publicou a prevalência ajustada por faixa etária e sexo.

Faixa etáriaMulheresHomens
20 a 29 anos5,31%17,05%
30 a 39 anos5,75%36,93%
40 a 49 anos18,58%56,26%
50 a 59 anos42,85%47,63%
60 a 69 anos53,41%53,31%
70 a 80 anos54,97%63,67%

Leia a coluna das mulheres de cima para baixo. Dos 40 aos 49 anos, 18,58%. Dos 50 aos 59, 42,85%: um degrau de 2,3 vezes em uma década. Dos 60 aos 69, os dois sexos ficam estatisticamente indistinguíveis, com 53,41% e 53,31%.

A diferença não se inverte: dos 70 aos 80 os homens voltam a aparecer mais (63,67% contra 54,97%). Dos 30 aos 39 o contraste é o oposto, cerca de seis vezes (36,93% contra 5,75%), mas esse número feminino tem IC 95% de 0,03% a 11,47%: a direção é confiável, o múltiplo não.

O EPISONO não mediu estado menopausal: não coletou história menstrual, dosagem hormonal, sintomas vasomotores nem uso de terapia hormonal. Chamar a faixa dos 50 aos 59 anos de "a década da menopausa" numa frase atribuída a ele seria apresentar como achado um mecanismo que nunca testou.

Menopausa e risco: o que os estudos realmente mediram

Quem testou o mecanismo foi Young e colegas, em 2003, na Wisconsin Sleep Cohort, nos Estados Unidos: 589 mulheres de base populacional, com polissonografia em laboratório e estado menopausal determinado por história menstrual, cirurgia ginecológica, terapia hormonal, hormônio folículo-estimulante e sintomas vasomotores. Foi medido, não presumido.

Depois de ajuste para idade, composição corporal, tabagismo e outros fatores de confusão, mulheres na pós-menopausa tiveram razão de chances de 2,6 (IC 95% de 1,4 a 4,8) de ter pelo menos 5 eventos por hora e de 3,5 (IC 95% de 1,4 a 8,8) de ter pelo menos 15, contra as que estavam na pré-menopausa. A parte quase sempre omitida é a perimenopausa: ali as razões foram 1,2 (IC 95% de 0,7 a 2,2) e 1,1 (IC 95% de 0,5 a 2,2), e os dois intervalos cruzam o 1. O aumento está associado a estar na pós-menopausa, não à transição em si.

Uma revisão publicada na Chest por Dunietz e colegas, online em agosto de 2025 e em papel em março de 2026, relata, como faixa da literatura internacional que revisa e não como número brasileiro, que a apneia atinge até 49% dos homens e 23% das mulheres. Quem chega à menopausa mais cedo, natural ou cirurgicamente, é apontada ali como particularmente suscetível: a variável é a função ovariana, não só o envelhecimento.

Por que a apneia na mulher é diagnosticada menos, e mais tarde

O quanto se perde

Em 1997, Young e colegas estimaram, a partir de 4.925 adultos empregados de Wisconsin, nos Estados Unidos, com polissonografia em um subgrupo de 1.090, que 93% das mulheres e 82% dos homens com síndrome da apneia do sono de moderada a grave nunca tinham recebido diagnóstico. São 11 pontos percentuais contra as mulheres.

O número é de 1997 e as taxas podem ter mudado, mas eram adultos empregados de meia-idade, descritos pelos autores como sem barreiras óbvias de acesso a cuidado: não é efeito de acesso. No Brasil não existe medida equivalente, nem levantamento sobre encaminhamento por sexo.

Como a apresentação difere

Basoglu e Tasbakan, em 2018, analisaram, em estudo retrospectivo de um ambulatório universitário de doenças do tórax na Turquia, 2.827 pacientes com apneia obstrutiva do sono: 2.052 homens e 775 mulheres, razão de 2,65 para 1.

Elas chegaram em média 5,7 anos mais velhas (56,1 contra 50,4) e cerca de 4,5 unidades de IMC mais pesadas (36,3 contra 31,8), e ainda assim com IAH e índice de dessaturação mais baixos, IAH mais alto em sono REM e mais baixo em decúbito dorsal, tempo total de sono mais curto, menor eficiência e latência mais longa: um conjunto de medidas que um índice único não resume.

O que as levou até lá também foi diferente. Os homens relataram mais apneia testemunhada; elas, com diferença estatisticamente significativa em todos os itens, mais engasgo noturno, cefaleia matinal, fadiga, sintomas de insônia, prejuízo de memória, alteração de humor, refluxo, noctúria e enurese, além de mais hipertensão, diabetes, doença de tireoide e asma.

Leia essa lista ao lado do estereótipo, que é ronco alto com pausas testemunhadas e sonolência diurna. O descrito nas mulheres é insônia, cansaço, dor de cabeça ao acordar, memória falhando e humor alterado: os sintomas atribuídos a estresse, depressão, ansiedade ou à perimenopausa.

Por que os instrumentos erram

A revisão da Chest afirma que os instrumentos de rastreio são predominantemente construídos sobre sintomas de homens, e que isso é em si uma causa de subdiagnóstico em mulheres. Ela registra a mesma assimetria da série turca: mais insônia e alterações de humor, menos ronco alto.

O segundo mecanismo é técnico. A diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono de 2017 recomenda com força a polissonografia, e não o teste domiciliar, em pessoas com insônia grave; o posicionamento da Associação Brasileira do Sono de 2024 acrescenta que estudos do tipo 3 tendem a subestimar as métricas de gravidade, especialmente nos casos leves. Insônia grave e IAH mais baixo são o que a série turca documenta como mais frequente nas mulheres. Mas a conclusão não é das sociedades: nenhuma faz recomendação por sexo, e o texto brasileiro não menciona mulheres.

Como o diagnóstico é feito no Brasil

Dois limiares organizam a literatura citada aqui: cinco eventos por hora é o piso para contar um caso de leve a grave, e quinze separa o que esses estudos chamam de moderada a grave. São limiares dos consensos que os publicaram, não uma leitura desta plataforma. E o de cinco não é aplicado do mesmo jeito em todo estudo: o EPISONO exigiu sintomas para a faixa leve, o HypnoLaus não exigiu nenhum.

O documento brasileiro de referência é o Posicionamento de 2024 da Associação Brasileira do Sono sobre métodos diagnósticos em adultos, de Palombini e colegas: 55 recomendações em nove domínios.

ExameO que éPosição da Associação Brasileira do Sono
Tipo 1Polissonografia completa em laboratórioCom o tipo 2, é o padrão-ouro para a avaliação objetiva dos distúrbios do sono
Tipo 2Polissonografia completa em domicílioTambém padrão-ouro: registra sono, porque inclui eletroencefalograma
Tipo 3Poligrafia cardiorrespiratória domiciliar, sem eletroencefalogramaConfirmatório apenas para quem tem alta probabilidade pré-teste de apneia moderada a grave e nenhum outro distúrbio do sono suspeito
Tipo 4Oximetria isoladaServe como triagem, mas não deve ser considerada acurada como técnica diagnóstica isolada

Saem daí três consequências práticas. A primeira: um resultado negativo no tipo 3 não exclui apneia, e o posicionamento recomenda nesse caso a polissonografia completa, do tipo 1 ou do tipo 2. A segunda: quem tem possível distúrbio do sono concomitante também deve fazer a completa, com insônia grave citada como exemplo pelo documento.

A terceira muda a leitura de um laudo. Um exame do tipo 3 não registra sono, e por isso o resultado não deve ser chamado de índice de apneia e hipopneia: o termo correto é índice de eventos respiratórios, o IER, contado sobre o tempo de monitoramento e não sobre o tempo de sono. Quem passou parte da noite acordada tem um denominador maior, que puxa o índice para baixo.

A mesma diretriz de 2017, de Kapur e colegas, acrescenta duas recomendações fortes: questionários e algoritmos de predição não devem diagnosticar apneia sem polissonografia ou teste domiciliar, e um teste domiciliar negativo ou inconclusivo deve ser seguido de polissonografia. Não existe estudo nacional de prevalência: os autores do EPISONO registram que disparidades regionais na infraestrutura diagnóstica persistem no país.

O que os estudos mediram entre peso e apneia

A evidência de dose e resposta vem de Peppard e colegas, no JAMA em 2000: 690 moradores de Wisconsin, nos Estados Unidos, sorteados entre trabalhadores empregados, idade média de 46 anos e 56% de homens, avaliados duas vezes com polissonografia em intervalos de quatro anos.

Contra quem manteve o peso estável, uma perda de 10% do peso corporal previu queda de 26% no IAH (IC 95% de 18% a 34%). Um ganho de 10% previu aumento de cerca de 32% (IC 95% de 20% a 45%) e um aumento de seis vezes na chance de desenvolver a forma moderada a grave (IC 95% de 2,2 a 17,0).

O trabalho publica apenas a variação proporcional do índice, não os valores absolutos de IAH: essas porcentagens não se convertem em eventos por hora para ninguém individualmente. E não publicou a relação separada por sexo, de modo que a regra sobre a qual o argumento do peso se apoia nunca saiu especificamente para mulheres.

O mecanismo continua em disputa. A hipótese da gordura da língua vem de Wang, Schwab e colegas, que em 2020 mediram por ressonância 67 adultos com obesidade e apneia antes e depois de perder peso: a queda da gordura da língua se correlacionou com a queda do IAH (rho de Pearson de 0,62), e resistiu ao controle por quanto peso foi perdido (0,36, p igual a 0,014).

Duas coortes recentes e bem menores não reproduziram esse elo, e vale separar o que cada uma achou. Nokes e colegas, em 2025, com 22 pessoas que completaram ressonância e polissonografia, 86,4% delas mulheres, não acharam associação entre o percentual de gordura da língua e o IAH. Nithya e colegas, em 2026, com dez pacientes indianos operados de cirurgia bariátrica, acharam redução significativa da fração de gordura da língua, mas nenhuma correlação entre a mudança anatômica e a do IAH: a gordura diminuiu, o que não se reproduziu foi o vínculo com o índice.

A pergunta em aberto é específica, e é sobre mulheres: a coorte que não achou a associação era 86,4% feminina, e o estudo de 2020 não publicou resultado por sexo. Se o mecanismo vale nelas é o que segue sem resposta.

O que o SURMOUNT-OSA mediu, e o que ele não mediu

O SURMOUNT-OSA, publicado por Malhotra e colegas no New England Journal of Medicine em 2024, reuniu dois ensaios de fase 3 de 52 semanas, randomizados contra placebo, em 469 adultos com apneia de moderada a grave e obesidade. O ensaio 1 incluiu 234 pessoas que não usavam pressão positiva nas vias aéreas (idade média 47,9 anos, 67,1% homens, IAH inicial 51,5 eventos por hora) e o ensaio 2, 235 já em uso dela (51,7 anos, 72,3% homens, IAH 49,5), com dose máxima tolerada de 10 mg ou 15 mg semanais de tirzepatida.

Um detalhe técnico vem antes dos resultados, porque muda a comparação com um laudo brasileiro: o ensaio pontuou hipopneia pela regra 1B da Academia Americana de Medicina do Sono, que exige dessaturação de pelo menos 4%. É mais estrita do que a de parte dos laboratórios brasileiros, então um índice medido aqui não é necessariamente comparável ao do ensaio.

No desfecho primário, mudança do IAH em 52 semanas, a tirzepatida reduziu 25,3 eventos por hora no ensaio 1 contra 5,3 do placebo: diferença de 20,0, com IC 95% de 14,2 a 25,8 eventos por hora a menos, e p menor que 0,001. No ensaio 2, a redução foi de 29,3 contra 5,5, diferença de 23,8, que o artigo relata como variação de 58,7% em relação ao valor inicial.

Nos desfechos secundários, 42,17% das pessoas em tirzepatida do ensaio 1 e 50,24% das do ensaio 2 atingiram IAH abaixo de 5, ou entre 5 e 14 com escore de Epworth igual ou menor que 10, contra 15,88% e 14,33% no placebo. Uma redução de pelo menos 50% do IAH ocorreu em 61,22% e 72,40%, contra 18,96% e 23,25%, e o peso caiu 17,65% e 19,62%, contra 1,56% e 2,34%. Nem o artigo nem este texto chamam isso de remissão ou cura: o critério composto inclui quem continua com IAH entre 5 e 14.

Sobre sexo, o ensaio fez algo incomum: a inscrição de homens foi limitada a 70% para garantir representação adequada de mulheres, e a randomização foi estratificada por sexo. Ainda assim o ensaio 2 terminou com 72,3% de homens, acima do teto, e o artigo não reconcilia os dois fatos. E aqui está o limite que importa para metade de quem lê: nenhuma análise de subgrupo por sexo foi pré-especificada ou publicada. O sexo entrou como covariável, mas as proporções não saíram separadas, e os 50,24% não foram demonstrados em mulheres especificamente.

Seis centros registrados ficavam no Brasil, um em Porto Alegre e cinco em São Paulo, sem resultado nacional publicado. Entrar exigia IMC igual ou maior que 30 e IAH igual ou maior que 15, e ficou de fora quem tinha diabetes tipo 1 ou tipo 2 e apneia central ou mista. Gestantes e lactantes foram excluídas, portanto o ensaio não licencia nada sobre gravidez e amamentação. A exclusão do diabetes e o piso de IMC 30 removem uma parcela grande de pacientes brasileiros da base de evidência, e as 52 semanas não mediram desfechos cardiovasculares.

Eventos adversos sérios ocorreram em 35 participantes (7,5%), em proporções semelhantes entre os grupos; não houve mortes. Dois casos adjudicados de pancreatite aguda ocorreram no grupo de tirzepatida do ensaio 2, e houve cinco casos de transtorno depressivo grave ou sério, ou de ideação ou comportamento suicida, nos dois ensaios somados: dois em tirzepatida, três em placebo. Completaram o seguimento 82,9% dos participantes, 91,5% em tirzepatida e 74,4% em placebo. O estudo foi financiado pela Eli Lilly, cujos funcionários assinam o artigo e fizeram as análises.

O que está aprovado, e onde

Nos Estados Unidos, o Food and Drug Administration aprovou a tirzepatida (Zepbound) em 20 de dezembro de 2024 para o tratamento da apneia obstrutiva do sono de moderada a grave em adultos com obesidade, em combinação com dieta de calorias reduzidas e aumento de atividade física. O comunicado do FDA a descreve como a primeira opção de tratamento medicamentoso para determinados pacientes com apneia, e "determinados" significa adultos com obesidade.

No Brasil o quadro tem duas camadas. A primeira está documentada em página da própria ANVISA: a indicação publicada em 09/06/2025 é de controle crônico do peso em adultos com IMC igual ou maior que 30, ou igual ou maior que 27 com pelo menos uma condição relacionada ao peso, e a lista de exemplos inclui hipertensão (pressão alta), dislipidemia (colesterol alto), apneia obstrutiva do sono, doença cardiovascular e pré-diabetes ou diabetes tipo 2. Ali a apneia é uma comorbidade entre várias que qualificam alguém a partir de IMC 27, não uma indicação isolada. O registro anterior, de 25/09/2023, era apenas para controle glicêmico no diabetes tipo 2.

A segunda camada é o que foi reportado e não foi possível confirmar em documento primário. O Conselho Federal de Farmácia informou em 21/10/2025 que a ANVISA havia aprovado o Mounjaro para o tratamento da apneia do sono em adultos com obesidade, citando publicação no Diário Oficial da União daquela data. Isso não pôde ser verificado contra um documento primário da ANVISA nesta apuração: a página índice de novos medicamentos carrega suas entradas dinamicamente e não retorna conteúdo a uma leitura direta.

Existe, portanto, um relato datado de um conselho federal e uma página da ANVISA que mostra outra coisa. Qual das duas descreve a bula aprovada hoje se responde na bula e com quem prescreve. E nenhuma das camadas resolve um ponto: a indicação americana e o ensaio que a sustenta são condicionados a obesidade, com piso de IMC 30, e nada disso alcança uma mulher sem obesidade e com apneia depois da menopausa, o grupo que o EPISONO e a Wisconsin Sleep Cohort identificam como de risco crescente. O vão inclui toda a faixa de sobrepeso, não só quem está abaixo dela.

CPAP e peso: o que os ensaios mediram nas duas direções

O peso prevê o IAH, como visto. Na direção contrária, tratar a apneia com pressão positiva contínua nas vias aéreas, o CPAP, não produz perda de peso: produz um pequeno ganho.

A meta-análise de Drager e colegas, publicada na Thorax em 2015 e assinada em primeiro lugar por um pesquisador do InCor e da FMUSP, reuniu 25 ensaios randomizados com 3.181 pacientes. O CPAP aumentou significativamente tanto o IMC (Hedges' g igual a 0,14; IC 95% de 0,07 a 0,21) quanto o peso (g igual a 0,17; IC 95% de 0,10 a 0,24). São tamanhos de efeito padronizados, pequenos pela convenção da área: a meta-análise não publica valor em quilogramas.

A meta-regressão testou onze variáveis, entre elas idade, sexo, peso e IMC iniciais, gravidade da apneia e adesão. Nenhum preditor isolado influenciou o desfecho de peso, o sexo incluído; apenas o peso inicial previu o tamanho do aumento de IMC. Em uma literatura em que quase nada é neutro quanto ao sexo, vale a precisão.

Uma meta-análise maior, de Chen e colegas em 2021, com 39 ensaios e 6.954 participantes, confirmou o ganho: o IMC aumentou 0,148 kg/m² com CPAP em relação ao controle (IC 95% de 0,04 a 0,26; p igual a 0,001), sobretudo em quem usou o aparelho até 5 horas por noite. Ela reúne ensaios do mundo inteiro.

O que a apneia não tratada cobra do coração

No HypnoLaus, o quartil mais alto de IAH (acima de 20,6 eventos por hora) foi associado, independentemente de fatores de confusão, a hipertensão (razão de chances 1,60; IC 95% de 1,14 a 2,26) e a síndrome metabólica (2,80; IC 95% de 1,86 a 4,29).

O estudo de desfechos cardiovasculares de Marin e colegas foi publicado na Lancet em 2005: 1.651 homens espanhóis em Zaragoza, acompanhados por 10,1 anos em média. As taxas de eventos fatais e não fatais por 100 pessoas-ano foram de 1,06 e 2,13 nos 235 com apneia grave não tratada, contra 0,30 e 0,45 nos 264 saudáveis e 0,35 e 0,64 nos 372 tratados com CPAP. Ajustada, a apneia grave não tratada teve razão de chances de 2,87 para eventos fatais (IC 95% de 1,17 a 7,51) e de 3,17 para os não fatais (IC 95% de 1,12 a 7,51). O desenho é observacional: ninguém foi randomizado para CPAP, e as taxas do grupo tratado não provam causalidade.

E há a leitura que é a razão deste artigo: a coorte inteira era composta por homens, em todos os braços, e o próprio título do trabalho diz isso. Esses tamanhos de efeito foram medidos inteiramente em 1.651 homens espanhóis, e uma mulher tem o direito de saber que nunca foram medidos nela.

Um trabalho que estratifica por sexo é canadense, de Kendzerska e colegas, de 2020: 10.149 adultos encaminhados para exame de sono em um hospital de Toronto entre 1994 e 2010, mediana de 49 anos e 38% de mulheres. Em 9,3 anos de mediana, 1.782 deles (18%) atingiram o desfecho composto de morte por qualquer causa ou internação por infarto, AVC, insuficiência cardíaca ou fibrilação atrial.

A associação entre a proporção do sono com saturação de oxigênio abaixo de 90% e o desfecho foi mais forte nas mulheres: para um aumento de intervalo interquartil, de 0% para 3% da noite, a razão de risco foi de 1,30 nelas (IC 95% de 1,19 a 1,42) e de 1,13 neles (IC 95% de 1,06 a 1,21), com p de interação igual a 0,01.

E a segunda metade do achado: as dessaturações e a frequência cardíaca no sono previram o desfecho em ambos, mas sonolência diurna, eficiência do sono e movimentos periódicos de pernas foram preditivos nelas e não neles. É uma coorte encaminhada e enriquecida em sintomas: essas razões não são transportáveis para adultos brasileiros não selecionados.

O que levar para a consulta

Quatro coisas deste artigo cabem em uma consulta. A primeira é a observação de quem ouve você dormir, quando existe alguém: pausas na respiração, engasgo noturno, ronco que para e volta. É o sinal que você não registra.

A segunda é o laudo antigo, se houver: o tipo do exame, porque a Associação Brasileira do Sono trata os tipos 1 e 2 como padrão-ouro e o tipo 3 como confirmatório só em casos específicos, e se o número impresso é IAH ou IER.

A terceira é a lista que a série turca de 2018 documenta como mais frequente nas mulheres e que raramente chega a uma consulta como queixa de sono: insônia, cefaleia matinal, fadiga, engasgo noturno, memória, humor, refluxo e noctúria.

A quarta vale para quem já tem um índice: o SURMOUNT-OSA exigiu dessaturação de pelo menos 4% para pontuar uma hipopneia, regra mais estrita do que a de parte dos laboratórios brasileiros, então os dois números não são a mesma medida.

Duas coisas este artigo deliberadamente não faz: dizer se um número é alto ou baixo, e dizer se alguém tem apneia. Nenhum questionário fecha diagnóstico, segundo a recomendação forte da Academia Americana de Medicina do Sono, e nenhum artigo também. Quem interpreta um exame de sono é um profissional de saúde habilitado, e quem decide o que fazer com o resultado é o médico que acompanha o seu caso.

Fontes

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  • Coorte que não encontrou associação entre gordura da língua e IAH (22 pessoas com ressonância, 86,4% mulheres) — Nokes B, et al. Frontiers in Physiology, 2025;16:1648767. doi.org
  • Coorte indiana de cirurgia bariátrica: a gordura da língua caiu, mas sem correlação com a mudança do IAH — Nithya S, et al. Journal of Clinical Medicine, 2026;15(11):4038. doi.org
  • SURMOUNT-OSA, os dois ensaios de fase 3 com tirzepatida (publicação primária, incluindo a regra 1B de pontuação da hipopneia) — Malhotra A, Grunstein RR, Fietze I, Weaver TE, Redline S, Azarbarzin A, Sands SA, Schwab RJ, Dunn JP, Chakladar S, Bunck MC, Bednarik J. Tirzepatide for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Obesity. New England Journal of Medicine, 2024;391(13):1193-1205. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Registro do SURMOUNT-OSA: desfechos secundários publicados, centros brasileiros e critérios de exclusão — Eli Lilly and Company (patrocinador). SURMOUNT-OSA, registro de resultados NCT05412004. ClinicalTrials.gov, US National Library of Medicine. clinicaltrials.gov
  • Aprovação do FDA para apneia obstrutiva do sono em adultos com obesidade — US Food and Drug Administration. FDA Approves First Medication for Obstructive Sleep Apnea. Comunicado de imprensa, 20 de dezembro de 2024 (lido em 21 de setembro de 2026). fda.gov
  • Página da ANVISA sobre a nova indicação de controle crônico do peso, publicada em 09/06/2025 — Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Mounjaro (tirzepatida): nova indicação. Novos medicamentos e indicações, publicado em 09/06/2025 (lido em 21 de setembro de 2026). gov.br/anvisa
  • Fonte secundária sobre uma aprovação brasileira para apneia, citada como relato e não confirmada contra documento primário da ANVISA — Conselho Federal de Farmácia. Anvisa aprova uso de Mounjaro para tratamento da apneia do sono. Notícia de 21/10/2025, citando publicação no Diário Oficial da União da mesma data.
  • Meta-análise sobre o efeito do CPAP no peso, com o sexo testado como moderador — Drager LF, Brunoni AR, Jenner R, Lorenzi-Filho G, Bensenor IM, Lotufo PA. Effects of CPAP on body weight in patients with obstructive sleep apnoea: a meta-analysis of randomised trials. Thorax, 2015;70(3):258-264. doi.org
  • Meta-análise maior sobre CPAP, peso e adiposidade local, com os subgrupos de adesão — Chen B, Drager LF, Peker Y, Vgontzas AN, Phillips CL, Hoyos CM, Salles GF, Guo M, Li Y. Effect of Continuous Positive Airway Pressure on Weight and Local Adiposity in Adults with Obstructive Sleep Apnea: A Meta-Analysis. Annals of the American Thoracic Society, 2021;18(10):1717-1727. doi.org
  • Coorte observacional de desfechos cardiovasculares, composta apenas por homens espanhóis — Marin JM, Carrizo SJ, Vicente E, Agusti AGN. Long-term cardiovascular outcomes in men with obstructive sleep apnoea-hypopnoea with or without treatment with continuous positive airway pressure: an observational study. The Lancet, 2005;365(9464):1046-1053. doi.org
  • Coorte canadense com desfechos cardiovasculares estratificados por sexo — Kendzerska T, Leung RS, Atzema CL, Chandy G, Meteb M, Malhotra A, Hawker GA, Gershon AS. Cardiovascular consequences of obstructive sleep apnea in women: a historical cohort study. Sleep Medicine, 2020;68:71-79. doi.org (texto completo livre: pubmed)
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