Coração e risco metabólico

Circunferência abdominal: cada tabela imprime um limite diferente

A mesma cintura recebe limites diferentes conforme a tabela consultada: a IDF imprime 94 cm para homens e 80 cm para mulheres entre europídeos, o ATP III imprime 102 cm e 88 cm, e a instrução da IDF para sul-americanos é usar os valores sul-asiáticos "até que haja dados mais específicos". Todos os limiares em centímetros são específicos por sexo, e em dois conjuntos, o japonês e o iraniano, o valor feminino fica acima do masculino. Este artigo transcreve o que cada órgão emitiu, com o protocolo de medição da OMS, os dados brasileiros do ELSA-Brasil e da Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, e a evidência de diferença entre os sexos nos dois sentidos.

Como medir: o protocolo da OMS, transcrito

A Organização Mundial da Saúde publica o procedimento de medida no manual STEPS, seção atualizada em 26 de janeiro de 2017. A Tamarin não inventa método próprio: transcreve o de quem o emitiu. A medida deve ser feita "ao final de uma expiração normal", "com os braços relaxados ao lado do corpo" e "no ponto médio entre a margem inferior da última costela palpável e o topo da crista ilíaca". Não é no umbigo. O restante, na ordem do manual:

  1. Fita de tensão constante.
  2. Diretamente sobre a pele. Se não for possível, sobre roupa leve, nunca sobre roupa grossa.
  3. Em ambiente privado, com os pés juntos e o peso distribuído igualmente entre os dois.
  4. Fita horizontal na frente e nas costas, o mais paralela possível ao chão.
  5. Respirar normalmente por algumas respirações, então fazer uma expiração normal.
  6. Ler com precisão de 0,1 cm, com a fita justa, mas não apertada a ponto de comprimir a pele.
  7. Medir uma única vez.

O quanto o lugar da fita importa foi medido, e a resposta difere por sexo. Mason e Katzmarzyk, em 2009, mediram 542 adultos de 20 a 67 anos (223 homens e 319 mulheres, amostra predominantemente branca) em quatro pontos: crista ilíaca, ponto médio, umbigo e cintura mínima. Nas mulheres, todas as médias diferiram significativamente entre si, exceto crista ilíaca e ponto médio; nos homens, nenhuma diferença significativa apareceu. A prevalência aparente de obesidade abdominal, pelos cortes do ATP III, variou de 23% a 34% nos homens e de 31% a 55% nas mulheres conforme o local: amplitude de 11 pontos contra 24, 2,2 vezes maior nelas. O achado alcança as mulheres duas vezes: a medida delas varia mais com o local da fita, e o limiar delas é mais baixo, 88 cm no ATP III contra 102 cm, de modo que a mesma variação atravessa a fronteira com mais facilidade nelas. A reprodutibilidade foi alta em todos os pontos: a variação está no protocolo, não na mão de quem mede.

Restrita aos dois protocolos oficiais, o da crista ilíaca (NIH) e o do ponto médio (OMS), a mesma amostra fica menos dramática: cerca de 32% pelos dois nos homens, 47% contra 41% nas mulheres. A declaração de consenso da International Atherosclerosis Society e do ICCR Working Group on Visceral Obesity, de 2020, relata, dos dados de Wang e colegas, diferença nula em homens e de cerca de 2 cm em mulheres entre esses pontos, e conclui que elas "são geralmente pequenas em homens adultos, mas bem maiores em mulheres". Em 940 adultos japoneses medidos por Matsushita e colegas, foram cerca de 2 cm nos homens e cerca de 9 cm nas mulheres. O consenso aceita qualquer um dos dois pontos, desde que "o protocolo escolhido seja usado de forma consistente". Como a variação por local de fita é um fenômeno feminino, seguir sempre o mesmo protocolo importa mais para as mulheres: a padronização não é neutra em benefício.

Os limites, lado a lado, com quem os emitiu

Cada linha traz o órgão emissor e os valores dos dois sexos. Nenhum número é da Tamarin: todos vêm das fontes listadas ao fim.

Valores de cintura publicados por órgãos e estudos, por sexo
Quem emitiuHomensMulheresObservação
IDF, 2006: europídeos94 cm80 cmTambém indicados para africanos subsaarianos, Mediterrâneo Oriental e Oriente Médio
IDF, 2006: sul-asiáticos90 cm80 cmBaseados em população chinesa, malaia e indiana asiática
IDF, 2006: chineses90 cm80 cmLinha própria, mesmos valores
IDF, 2006: japoneses90 cm80 cmNota de rodapé: "novos dados apoiam o uso dos valores mostrados acima"
IDF, 2006: sul-americanos e centro-americanos"Usar as recomendações sul-asiáticas até que haja dados mais específicos"Ou seja, 90 cm e 80 cm, por ausência de dados próprios
NCEP ATP III, 2001 (Estados Unidos)acima de 102 cmacima de 88 cmFaixa intermediária apenas para homens, em nota de rodapé
Sociedade Japonesa de Obesidade, conforme o consenso IAS/ICCR, 202085 cm90 cmCalibrados contra gordura visceral acima de 100 cm² em TC, no umbigo
Valores iranianos, conforme o consenso IAS/ICCR, 202089 cm91 cmMesma inversão, de 2 cm
ABESO, 2016, texto corrido94 cm ou mais80 cm ou maisA Tabela 5 da mesma edição imprime japoneses 90 cm e 85 cm
ELSA-Brasil, Cardinal e colegas, 201892 cm86 cmPontos ótimos medidos em brasileiros
ABESO, 2026, e diretriz brasileira de 2025Nenhum valor em centímetrosA ABESO de 2026 publica a relação cintura-altura acima de 0,5, igual para os dois sexos; a de 2025 não imprime corte

Quem mede a própria cintura no Brasil pode, lendo documentos todos legítimos, encontrar 90 cm ou 102 cm se for homem, e 80 cm ou 88 cm se for mulher: incerteza de 12 cm para homens e de 8 cm para mulheres. Entre as linhas de órgãos emissores, a diferença entre os sexos numa mesma linha vai de 14 cm a 10 cm, e o sinal se inverte em duas delas: a da Sociedade Japonesa de Obesidade e a iraniana.

Uma dessas linhas trata os sexos de forma diferente também na estrutura. O ATP III fixa 102 cm para homens e 88 cm para mulheres, e acrescenta, em nota de rodapé, uma zona intermediária de 8 cm só para eles: "alguns pacientes do sexo masculino podem desenvolver múltiplos fatores de risco metabólico quando a circunferência da cintura está apenas marginalmente aumentada, por exemplo 94-102 cm", pacientes que, segundo o mesmo rodapé, "devem se beneficiar de mudanças nos hábitos de vida". Entre 94 e 102 cm, ele recebe do documento uma descrição e uma orientação de agir. Às mulheres, o ATP III dá um corte binário em 88 cm e nada mais: numa busca sobre o relatório final completo, nenhuma faixa intermediária feminina aparece. Uma mulher com 85 cm não encontra ali linguagem que descreva a situação dela.

De onde vieram os números, e por que um par se inverte

Os valores de 102 cm e 88 cm nunca foram derivados de risco de doença. O consenso IAS/ICCR de 2020 registra que "foram originalmente desenvolvidos usando dados transversais em adultos brancos, entre os quais uma circunferência de cintura de 102 cm em homens e 88 cm em mulheres correspondia a um IMC de 30,0 kg/m²", e que, portanto, "não foram desenvolvidos com base na relação entre circunferência da cintura e risco adverso à saúde".

É essa a origem da diferença de 14 cm no par do ATP III. Ela não mede quanta gordura visceral cada sexo acumula nem quanto tolera: mede a cintura que, em cada sexo, costumava acompanhar um IMC de 30 em adultos brancos. O mesmo painel, resumindo o estudo de Ardern e colegas, registra que "as recomendações atuais que usam um único limiar de circunferência da cintura em todas as categorias de IMC são insuficientes para identificar aqueles com risco aumentado à saúde"; em voz própria, diz apenas que "questiona a lógica" dessas diretrizes. Na tabela dele, a amplitude entre etnias vai de 80 a 98 cm em homens e de 80 a 96 cm em mulheres.

Troque o alvo da calibração e a relação entre os sexos se inverte. Os valores japoneses, 85 cm para homens e 90 cm para mulheres, "foram otimizados para identificar homens e mulheres com tecido adiposo visceral medido por TC acima de 100 cm² ao nível do umbigo", enquanto os demais valores por etnia da mesma tabela miravam adultos com risco cardiovascular elevado. Na mesma literatura, três alvos diferentes: o limiar feminino fica 5 cm acima do masculino em vez de 14 cm abaixo. O Japão não é caso único: os valores iranianos, 89 cm e 91 cm, trazem a mesma inversão. Uma ressalva de atribuição, porque as fontes discordam: a tabela da IDF de 2006 imprime japoneses 90 cm e 80 cm, e os 85 cm e 90 cm vêm do consenso IAS/ICCR, reportando a Sociedade Japonesa de Obesidade, que não foi consultada diretamente aqui.

O caso sul-americano, citado com precisão

A linha da tabela da IDF que se aplica ao Brasil não contém um número. Contém uma instrução. Para "Ethnic South and Central Americans", o consenso da IDF de 2006 imprime: "Use South Asian recommendations until more specific data are available". O limiar aplicado a quem vive no Brasil, 90 cm para homens e 80 cm para mulheres, não foi medido em brasileiros: foi emprestado de uma população chinesa, malaia e indiana asiática, até que existam dados melhores.

Dados brasileiros existem e não coincidem com o empréstimo. A linha de base do ELSA-Brasil, publicada por Cardinal e colegas em 2018, é o maior estudo brasileiro a testar cortes de cintura contra um desfecho medido: 14.893 servidores públicos de seis cidades, 6.772 homens e 8.121 mulheres, de 35 a 74 anos. Os pontos ótimos foram 92 cm para homens e 86 cm para mulheres. Acima desses valores, as chances de síndrome metabólica foram 50% maiores nos homens e 93% maiores nas mulheres.

Contra os 90 cm e 80 cm sul-asiáticos, o valor medido em homens brasileiros está 2 cm acima e o das mulheres, 6 cm acima: a distorção é assimétrica e recai sobre elas. Duas qualificações: o ELSA-Brasil validou os cortes contra a presença de síndrome metabólica, não contra infarto, AVC ou morte; e os autores registram que "não encontramos limiar aparente para a circunferência da cintura nos gráficos de spline cúbica restrita".

O tamanho prático da escolha aparece na Pesquisa Nacional de Saúde de 2013, do IBGE, analisada por Ramires e colegas: 59.402 adultos medidos com fita, 25.920 homens e 33.482 mulheres. Pelos cortes de 90 cm e 80 cm, ficaram acima do valor aplicado a cada sexo 55,6% dos homens (IC 99% 54,0 a 57,1) e 73,9% das mulheres (72,7 a 75,0): 18,3 pontos percentuais de diferença, razão de 1,33. A síndrome metabólica foi bem menos prevalente que a cintura elevada, e nela a direção entre os sexos se repete: 7,5% nos homens contra 10,3% nas mulheres.

O que a medicina brasileira publica hoje

A 4ª edição das Diretrizes Brasileiras de Obesidade, da ABESO, de 2016, imprime quatro pares sexo-específicos no mesmo capítulo e não deixa a escolha implícita: a recomendação 1G diz, literalmente, "podem ser usados os pontos de corte da OMS, NCEP ou IDF".

Os dois documentos brasileiros mais recentes fizeram outra escolha: recomendam medir a cintura e não publicam centímetros. A Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade da ABESO, 5ª edição, de 2026, traz a Recomendação 5, classe IIb e nível de evidência C, que considera tratamento farmacológico "em indivíduos com aumento da circunferência da cintura e/ou da relação cintura/altura e complicações relacionadas à adiposidade, independentemente do IMC". Sobre valores, diz apenas que eles "variam de acordo com as diferentes populações" e que "a relação cintura/altura (RCA) é considerada elevada quando maior que 0,5". Numa extração completa do documento, 411 mil caracteres, não há uma única ocorrência de valor de cintura em centímetros. A Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025, assinada por cinco sociedades e publicada por Saraiva e colegas nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, recomenda cintura, cintura-quadril e cintura-altura como alternativas ao IMC, e também não imprime centímetros.

O resultado é uma inversão discreta: o único corte antropométrico que a diretriz da ABESO de 2026 publica, a relação cintura-altura acima de 0,5, é o mesmo para homens e mulheres; a de 2025 recomenda as três medidas e não imprime corte algum. O país que herdava limiares sexo-específicos de fora deixou de publicar centímetros.

Por que os limites diferem por sexo

A justificativa fisiológica é a distribuição de gordura, e ela tem números em dois sentidos. Schorr e colegas, em 2018, compararam 208 adultos com sobrepeso ou obesidade e sem outras doenças, pareados por idade e IMC, no Massachusetts General Hospital, nos Estados Unidos: 94 homens e 114 mulheres, 37 anos e IMC 35 kg/m² em média. As mulheres tinham maior percentual de massa gorda, mais gordura de extremidades e menor massa magra (p menor ou igual a 0,0005). Os homens tinham mais tecido adiposo visceral, mais lipídio intramiocelular e mais lipídio intra-hepático ajustado por idade e IMC (p menor que 0,05), e um perfil de risco cardiometabólico globalmente pior (p menor que 0,01).

O que vem depois complica essa leitura: a associação entre gordura visceral e marcadores de risco foi mais forte nas mulheres, o lipídio intramiocelular foi mais deletério nos homens, e mais gordura nas pernas associou-se a um perfil mais favorável nelas do que neles (p menor ou igual a 0,03). No mesmo IMC, o homem carrega mais gordura visceral e tem o perfil pior, mas cada unidade de gordura visceral pesa mais na mulher.

A assimetria foi quantificada por imagem em outra população. Kong e colegas, em 2022, fizeram tomografia ao nível da 3ª vértebra lombar em 1.787 adultos saudáveis do norte da China (902 homens e 885 mulheres, idade média 45,3 anos, IMC médio 23,5 kg/m²). A mediana de área de gordura visceral foi de 120,9 cm² nos homens contra 67,2 cm² nas mulheres, 1,8 vez maior, e ultrapassaram o limiar de 100 cm² 60,8% dos homens contra 30,4% das mulheres. Na direção oposta, elas tinham mais gordura subcutânea, 146,7 cm² contra 116,9 cm², no depósito que a literatura associa a menor risco. É uma coorte com IMC médio de 23,5 kg/m², e populações do leste asiático carregam mais gordura visceral para um mesmo IMC: os valores absolutos em cm² não são transferíveis para a população brasileira. O que se transfere é a assimetria entre os sexos.

Há ainda um motivo para não trocar a fita pela balança, e ele também é assimétrico: para um mesmo IMC, a cintura vem aumentando. O consenso IAS/ICCR reporta os dados de Janssen e colegas, que compararam amostras canadenses de 1981 e de 2007: para um IMC de 25 kg/m², a cintura era 1,1 cm maior nos homens e 4,9 cm maior nas mulheres, uma deriva 4,45 vezes maior nelas. A consequência é direta: para um mesmo IMC, a subestimação da adiposidade central das mulheres vem aumentando ao longo das décadas. Albrecht e colegas confirmaram o padrão nos Estados Unidos, na Inglaterra, na China e no México, sem equivalente brasileiro.

A transição menopáusica muda a conta

Em mulheres, a distribuição de gordura se reorganiza numa janela de poucos anos, e o que interessa a quem usa fita é o que a balança não mostra. Na coorte longitudinal SWAN, dos Estados Unidos, com 1.246 participantes multiétnicas acompanhadas por densitometria de 8 anos antes até 10,5 anos depois da última menstruação, Greendale e colegas registraram em 2019 que a massa gorda, que subia cerca de 1% ao ano na pré-menopausa, praticamente dobrou no início da transição, para cerca de 1,7% ao ano, enquanto a massa magra, que crescia 0,2% ao ano (p = 0,0002), passou a cair 0,2% ao ano (p = 0,007). O peso subiu de forma linear na pré-menopausa, sem aceleração na transição: o ganho de gordura e a perda de massa magra se cancelam na balança, e a composição muda enquanto o peso não acusa nada. O SWAN acompanhou apenas mulheres, de modo que nada afirma sobre um equivalente masculino.

Lovejoy e colegas, em 2008, acompanharam por 4 anos 156 mulheres inicialmente na pré-menopausa, na Louisiana: todas ganharam gordura subcutânea abdominal, e apenas as que se tornaram pós-menopáusicas (n = 51) tiveram aumento significativo da gordura visceral. As duas coortes são norte-americanas, sem participantes brasileiras. O guia de perimenopausa trata da transição inteira; aqui interessa só a parte que a fita mede e a balança não.

Cintura contra IMC, no que foi medido em desfecho

Cerhan e colegas, em 2014, reuniram 11 coortes prospectivas dos Estados Unidos, da Europa e da Austrália, com 650.386 adultos brancos de 20 a 83 anos; numa mediana de 9 anos, 78.268 morreram. Com ajuste por seis fatores, entre eles o IMC, a cintura manteve associação linear positiva com mortalidade por todas as causas: nos homens, 1,52 (IC 95% 1,45 a 1,59) para 110 cm ou mais contra menos de 90 cm, e 1,07 (IC 95% 1,06 a 1,08) por incremento de 5 cm; nas mulheres, 1,80 (1,70 a 1,89) para 95 cm ou mais contra menos de 70 cm, e 1,09 (1,08 a 1,09) por 5 cm. A redução estimada de expectativa de vida entre a maior e a menor faixa foi de cerca de 3 anos nos homens e cerca de 5 anos nas mulheres. As razões das categorias extremas usam faixas de referência diferentes em cada sexo e não são comparáveis; só as por 5 cm são, e foram semelhantes nos dois sexos de 20 a 50 kg/m² de IMC. São adultos brancos, e a população brasileira é substancialmente não branca.

A comparação direta entre medidas veio do UK Biobank. Peters e colegas, em 2018, acompanharam 265.988 mulheres e 213.622 homens de 40 a 69 anos sem doença cardiovascular e registraram 5.710 infartos do miocárdio numa média de 7,1 anos, excluídos os dois primeiros, 28% deles em mulheres. Por desvio-padrão a mais de IMC, cintura, relação cintura-quadril e relação cintura-altura, as razões de risco foram, nas mulheres, 1,22, 1,35, 1,49 e 1,34; nos homens, 1,28, 1,28, 1,36 e 1,33.

As razões mulher-para-homem dessas razões são o resultado central: 0,96 (IC 95% 0,91 a 1,02) para o IMC, 1,07 (1,00 a 1,14) para a cintura, 1,15 (1,06 a 1,24) para a cintura-quadril e 1,03 (0,97 a 1,09) para a cintura-altura. Por unidade de adiposidade geral, medida pelo IMC, não houve diferença entre os sexos; por unidade de adiposidade central medida pela cintura-quadril, o excesso de risco de infarto foi 15% maior nas mulheres, com intervalo de confiança excluindo 1. Para os autores, essa relação supera o IMC como preditor nos dois sexos, "especialmente nas mulheres". Já a cintura isolada tem limite inferior exatamente em 1,00, e os autores escrevem que a diferença "apenas alcançou significância estatística": o argumento se sustenta na cintura-quadril, não na cintura sozinha. É uma população majoritariamente branca, e os autores registram que a generalização para outras populações precisa de mais análise.

O EPIC mede outra coisa, e os números dos dois sexos ali não são comparáveis entre si. Nessa coorte europeia com 359.387 participantes de nove países e 14.723 mortes em 9,7 anos, Pischon e colegas encontraram, no quintil mais alto de cintura, risco relativo de morte de 2,05 (IC 95% 1,80 a 2,33) nos homens e 1,78 (1,56 a 2,04) nas mulheres; no quintil mais alto de cintura-quadril, 1,68 e 1,51. O menor risco por IMC ocorreu em 25,3 nos homens e 24,3 nas mulheres. Os dois resultados não se contradizem: os riscos do EPIC são calculados dentro da distribuição de cada sexo, o estudo não testou a diferença entre homens e mulheres, e os intervalos se sobrepõem. São medidas diferentes (quintil superior contra desvio-padrão) e desfechos diferentes (morte contra infarto).

Relação cintura-altura: metade da altura, um número para os dois sexos

A relação cintura-altura é a cintura dividida pela altura, nas mesmas unidades, e o valor que circula é 0,50. Tem evidência de meta-análise e não tem consenso. Ashwell e colegas, em 2012, reuniram 31 estudos com mais de 300.000 adultos de vários grupos étnicos. A relação cintura-altura discriminou desfechos cardiometabólicos adversos 4% a 5% melhor que o IMC (p menor que 0,01), contra 3% da cintura isolada; e superou a cintura isolada para diabetes, hipertensão, doença cardiovascular e o conjunto dos desfechos (p menor que 0,005), em homens e em mulheres. É a meta-análise por trás da regra de manter a cintura abaixo da metade da altura, no guia de manejo de peso. Browning e colegas, numa revisão anterior de 78 estudos, encontraram área sob a curva média de 0,704 para a relação cintura-altura, 0,693 para a cintura e 0,671 para o IMC; os valores-limite médios, de estudos em quatorze países, com participantes caucasianos, asiáticos e centro-americanos, foram 0,50 para homens e 0,50 para mulheres. Essa revisão inclui treze análises em crianças, de modo que as áreas médias não são um resultado exclusivamente de adultos.

No Brasil, Castanheira e colegas a testaram na linha de base do ELSA-Brasil, com 9.264 adultos de 35 a 54 anos (5.026 mulheres e 4.238 homens) de seis capitais. A área sob a curva ajustada por idade variou de 0,68 a 0,72 nos homens e de 0,69 a 0,75 nas mulheres, e foi maior nelas nos quatro desfechos: hipertensão, diabetes, hipertrigliceridemia e ao menos dois componentes da síndrome metabólica, não eventos cardiovasculares. Os pontos ótimos foram 0,55 nas mulheres e 0,54 nos homens, diferença de 0,01, mas os autores recomendam manter o limite já referenciado de 0,50, porque os cortes ótimos produziam taxa alta de falsos-negativos.

O contraponto vem do mesmo consenso IAS/ICCR: "em adultos completamente crescidos, a relação cintura-altura é menos útil, já que a altura é geralmente fixa e o valor só pode ser alterado por mudanças na circunferência da cintura". O painel prefere a cintura isolada para acompanhar um tratamento. Do lado britânico, o NICE indica, conforme o editorial revisado por pares de Barber, de 2023, que uma relação de 0,5 ou mais indica risco aumentado em adultos com IMC abaixo de 35 kg/m².

O que a cintura mostrou nos estudos com GLP-1

O ensaio SELECT, com 17.604 participantes com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, sem diabetes, fez uma escolha que resume este artigo: usou cortes de cintura ao mesmo tempo sexo-específicos e raça-específicos, a saber, "mulheres asiáticas menos de 80 cm, mulheres não asiáticas menos de 88 cm, homens asiáticos menos de 88 cm, homens não asiáticos menos de 102 cm". Quatro limiares num ensaio. Entre os participantes com IMC abaixo de 35 kg/m², 41,2% dos que receberam semaglutida caíram abaixo do próprio ponto de corte até a semana 104, contra 18,0% no placebo; na linha de base, eram 15,0% e 14,3%. Na semana 208, a cintura caiu 7,7 cm com semaglutida contra 1,3 cm com placebo, e a relação cintura-altura, 6,9% contra 1,0% (Ryan e colegas, 2024).

Numa análise pré-especificada do mesmo ensaio, Deanfield e colegas, em 2025, estimam que 33% do benefício sobre eventos cardiovasculares maiores tenha sido mediado pela redução da cintura. Os próprios autores, porém, concluem que o efeito foi "independente da adiposidade basal e da perda de peso, com apenas uma pequena associação com a circunferência da cintura": citar os 33% sem citar essa frase inverteria a leitura deles. E, sobre sexo, o que o SELECT publica é uma diferença de peso, não de cintura: a diferença de perda de peso em relação ao placebo, na semana 104, foi de 11,1% nas mulheres (IC 95% 11,56 a 10,66) e de 7,5% nos homens (7,78 a 7,23), com p menor que 0,0001. Números de cintura por sexo não constam do artigo revisado por pares. Nada disso decide um tratamento: se um medicamento cabe num caso, e o que uma variação de cintura significa nele, é decisão de um profissional de saúde habilitado.

O que ainda não se sabe

Nenhuma das diretrizes consultadas publica limiares de cintura diferentes para antes e depois da transição menopáusica, embora Lovejoy e colegas mostrem que o depósito visceral só aumenta em quem passa por ela. A ausência é um fato publicável, e não autoriza inventar um número. Também não existe, até onde a busca que sustenta este artigo alcançou, estudo brasileiro validando cortes de cintura contra infarto, AVC ou morte medidos prospectivamente; e a VIGITEL usa peso e altura autorrelatados, sem medir cintura.

O que fica de prático é mais modesto do que a tabela sugere. A cintura é reprodutível quando o protocolo é o mesmo todas as vezes, e a curva de risco que ela acompanha é contínua, sem degrau natural, segundo os próprios autores do ELSA-Brasil. Os cortes existem para organizar decisões clínicas, e quem lê o que um número significa é um profissional de saúde habilitado, com o histórico e os exames dessa pessoa à frente. A Tamarin conecta e organiza. A leitura do seu número é do médico que acompanha o seu caso.

Fontes

  • Protocolo de medição da cintura da OMS (fonte primária do procedimento transcrito) — World Health Organization. WHO STEPS Surveillance Manual, Part 3, Section 5: Physical Measurements, "Measuring Waist Circumference". Genebra; seção atualizada em 26 de janeiro de 2017. who.int
  • Estudo que mediu a variação da cintura conforme o local da fita, por sexo — Mason C, Katzmarzyk PT. Variability in waist circumference measurements according to anatomic measurement site. Obesity (Silver Spring), 2009;17(9):1789-1795. doi.org
  • Declaração de consenso IAS/ICCR (origem dos 102/88 cm, valores japoneses e iranianos, comparação de protocolos e deriva secular) — Ross R, Neeland IJ, Yamashita S, Shai I, Seidell J, Magni P, Santos RD, Arsenault B, Cuevas A, Hu FB, Griffin BA, Zambon A, Barter P, Fruchart JC, Eckel RH, Matsuzawa Y, Després JP. Waist circumference as a vital sign in clinical practice: a Consensus Statement from the IAS and ICCR Working Group on Visceral Obesity. Nature Reviews Endocrinology, 2020;16(3):177-189. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Consenso da IDF, origem da tabela por etnia e da instrução para sul-americanos — International Diabetes Federation (grupo de redação: Alberti KGMM, Zimmet P, Shaw J; Grundy SM como consultor do grupo de redação). The IDF consensus worldwide definition of the metabolic syndrome, Tabela 2: Ethnic specific values for waist circumference. International Diabetes Federation, Bruxelas, 2006. Versão em periódico: Diabetic Medicine, 2006;23(5):469-480. doi.org
  • NCEP ATP III, origem dos 102 cm e 88 cm e da faixa intermediária oferecida apenas a homens — Expert Panel on Detection, Evaluation, and Treatment of High Blood Cholesterol in Adults (National Cholesterol Education Program, NIH/NHLBI). Executive Summary of the Third Report of the NCEP Expert Panel on Detection, Evaluation, and Treatment of High Blood Cholesterol in Adults (Adult Treatment Panel III). JAMA, 2001;285(19):2486-2497. Relatório final: Circulation, 2002;106(25):3143-3421. doi.org
  • Diretriz brasileira de 2016, com a recomendação 1G e a Tabela 5 — Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Diretrizes Brasileiras de Obesidade 2016, 4ª edição, capítulo "Obesidade e sobrepeso: diagnóstico", Tabela 5 e recomendação 1G. São Paulo, 2016. abeso.org.br
  • Pontos de corte de cintura medidos em brasileiros (ELSA-Brasil) — Cardinal TR, Vigo A, Duncan BB, Matos SMA, da Fonseca MJM, Barreto SM, Schmidt MI. Optimal cut-off points for waist circumference in the definition of metabolic syndrome in Brazilian adults: baseline analyses of the Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil). Diabetology & Metabolic Syndrome, 2018;10:49. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Diretriz brasileira de 2026, que recomenda medir a cintura sem publicar valores em centímetros — Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade 2026, 5ª edição, Recomendação 5 (liderança: Fernando Gerchman). São Paulo, 2026. abeso.org.br
  • Diretriz brasileira de 2025, assinada por cinco sociedades médicas — Saraiva JFK, Valerio CM, Rached FH, Van de Sande-Lee S, Rocha Giraldez VZ, Valente F, Drager LF, Halpern B, e cols. 2025 Brazilian Evidence-based Guideline on the Management of Obesity and Prevention of Cardiovascular Disease and Obesity-Associated Complications: A Position Statement by Five Medical Societies. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025;122(9):e20250621. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Prevalência de cintura elevada na Pesquisa Nacional de Saúde de 2013 (IBGE) — Ramires EKNM, Menezes RCE, Longo-Silva G, Santos TGD, Marinho PM, Silveira JACD. Prevalence and Factors Associated with Metabolic Syndrome among Brazilian Adult Population: National Health Survey - 2013. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2018;110(5):455-466. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Composição corporal e risco cardiometabólico por sexo, em IMC pareado (coorte norte-americana) — Schorr M, Dichtel LE, Gerweck AV, Valera RD, Torriani M, Miller KK, Bredella MA. Sex differences in body composition and association with cardiometabolic risk. Biology of Sex Differences, 2018;9(1):28. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Gordura visceral e subcutânea medidas por tomografia, por sexo (coorte do norte da China) — Kong M, Xu M, Zhou Y, Geng N, Lin N, Song W, Li S, Piao Y, Han Z, Guo R, e cols. Assessing Visceral Obesity and Abdominal Adipose Tissue Distribution in Healthy Populations Based on Computed Tomography: A Large Multicenter Cross-Sectional Study. Frontiers in Nutrition, 2022;9:871697. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Mudança de composição corporal e de peso na transição menopáusica (coorte SWAN) — Greendale GA, Sternfeld B, Huang M, Han W, Karvonen-Gutierrez C, Ruppert K, Cauley JA, Finkelstein JS, Jiang SF, Karlamangla AS. Changes in body composition and weight during the menopause transition. JCI Insight, 2019;4(5):e124865. doi.org (texto completo livre: pubmed)
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  • Análise agrupada de cintura e mortalidade em 650.386 adultos brancos — Cerhan JR, Moore SC, Jacobs EJ, Kitahara CM, Rosenberg PS, Adami HO, Ebbert JO, English DR, Gapstur SM, Giles GG, e cols. A pooled analysis of waist circumference and mortality in 650,000 adults. Mayo Clinic Proceedings, 2014;89(3):335-345. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Diferenças entre os sexos na associação entre adiposidade e infarto (UK Biobank) — Peters SAE, Bots SH, Woodward M. Sex Differences in the Association Between Measures of General and Central Adiposity and the Risk of Myocardial Infarction: Results From the UK Biobank. Journal of the American Heart Association, 2018;7(5):e008507. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Adiposidade geral e abdominal e risco de morte na Europa (EPIC) — Pischon T, Boeing H, Hoffmann K, Bergmann M, Schulze MB, Overvad K, van der Schouw YT, Spencer E, Moons KGM, Tjønneland A, e cols. General and abdominal adiposity and risk of death in Europe. New England Journal of Medicine, 2008;359(20):2105-2120. doi.org
  • Meta-análise da relação cintura-altura contra o IMC e a cintura isolada — Ashwell M, Gunn P, Gibson S. Waist-to-height ratio is a better screening tool than waist circumference and BMI for adult cardiometabolic risk factors: systematic review and meta-analysis. Obesity Reviews, 2012;13(3):275-286. doi.org
  • Revisão sistemática que derivou o valor-limite médio de 0,50 para os dois sexos — Browning LM, Hsieh SD, Ashwell M. A systematic review of waist-to-height ratio as a screening tool for the prediction of cardiovascular disease and diabetes: 0·5 could be a suitable global boundary value. Nutrition Research Reviews, 2010;23(2):247-269. doi.org
  • Relação cintura-altura testada em brasileiros (ELSA-Brasil) — Castanheira M, Chor D, Braga JU, Cardoso LO, Griep RH, Molina MDCB, da Fonseca MJM. Predicting cardiometabolic disturbances from waist-to-height ratio: findings from the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil) baseline. Public Health Nutrition, 2018;21(6):1028-1035. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Editorial revisado por pares que descreve o critério do NICE para a relação cintura-altura — Barber TM. How will the latest modifications to the CG189 NICE guidelines for obesity management likely impact clinical care? Hepatobiliary Surgery and Nutrition, 2023;12(3):413-416. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Ensaio SELECT: cortes de cintura por sexo e etnia, e mudanças de cintura — Ryan DH, Lingvay I, Deanfield J, e cols. Long-term weight loss effects of semaglutide in obesity without diabetes in the SELECT trial. Nature Medicine, 2024;30(7):2049-2057. doi.org (texto completo livre: pubmed)
  • Análise pré-especificada do SELECT sobre adiposidade e desfechos cardiovasculares — Deanfield J, Lincoff AM, Kahn SE, Emerson SS, Lingvay I, Scirica BM, Plutzky J, Kushner RF, e cols. Semaglutide and cardiovascular outcomes by baseline and changes in adiposity measurements: a prespecified analysis of the SELECT trial. The Lancet, 2025;406(10516):2257-2268. doi.org
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